SOBRE O iCS

Pesquisa com donatários avalia a atuação e o relacionamento com o Instituto Clima e Sociedade 

Flexível, espírito aberto e construtivo, empático, compreensivo e acolhedor. Esses são alguns dos adjetivos que apareceram em diferentes depoimentos dos donatários ao descreverem a dimensão do relacionamento com o Instituto Clima e Sociedade. Em um primeiro momento, poderia soar estranho encontrarmos essas qualidades em um processo avaliativo de uma relação primordialmente de apoio financeiro. Porém, é isso que revela o primeiro Relatório de Avaliação, realizado no final de 2017 com os nossos grantees. Um dos resultados mais surpreendentes do levantamento apontou que mais de 70% dos donatários destacaram que o suporte institucional ultrapassa o viés financeiro. “Eles descreveram uma relação mais de parceria e menos experimental. Vi muita humanidade nos resultados”, disse a psicóloga e consultora Martina Rillo.

 

A pesquisa foi inspirada nos parâmetros usados pelo Center for Effective Philanthropy (CEP) com doadores do mundo inteiro. O principal objetivo do survey era mapear as percepções dos donatários sobre o apoio recebido pelo iCS em 2016 e 2017, além de compreender o papel da organização no campo das mudanças climáticas. Para que não houvesse nenhuma possibilidade de identificação, enviamos um questionário anônimo para 130 representantes de instituições financiadas. Resultado: 62 pessoas participaram do levantamento, totalizando uma taxa de 48% de resposta.

 

O processo de feedback é uma ferramenta essencial para engajar e fornecer informações sobre o desempenho de uma organização. Nesse sentido, ele atua como uma estratégia analítica tanto de desenvolvimento pessoal quanto profissional.  Assim, há um caráter positivo – no qual as ações bem-sucedidas e os comportamentos são ressaltados –, ou um caráter corretivo – onde buscamos um redirecionamento de ações para tornar a liderança muito mais eficiente. Mesclar essas duas percepções foi o nosso maior objetivo ao realizarmos esta avaliação com os donatários: fortalecer, aprimorar e lapidar o nosso relacionamento – reconhecendo as nossas fragilidades e evidenciar as potencialidades.

 

Diante disso, compartilhamos aqui alguns dentre os principais resultados obtidos a partir da pesquisa realizada. Consideramos também quais serão os próximos passos rumo às mudanças necessárias para o aperfeiçoamento e excelência da relação institucional com os nossos donatários. O processo, então, foi estruturado em quatro categorias temáticas (que englobavam outros quatro ou cinco quesitos):

 

 I)  Processo de apresentação de proposta para o pedido de doação

 II) Processo de monitoramento da doação

 III) Interação e relacionamento com o iCS

 IV) Percepções sobre a atuação do iCS no campo das mudanças climáticas 

 

“Investigamos as diferentes dimensões do processo de apoio financeiro e institucional para compreender a clareza, transparência e praticidade na atuação do iCS enquanto organização”, explicou Martina. Todas as categorias foram bem avaliadas, havendo pouca variação de notas médias, conforme o gráfico abaixo.  O tópico de “interação e relacionamento com o iCS” foi a dimensão melhor avaliada com a média positiva de 8,26 – em uma escala de 1 a 10.

ETAPAS DO PROCESSO

A dimensão “sentir-se à vontade” para dialogar com o iCS quando há algum problema foi o aspecto mais positivo. Ainda sobre a interação e relacionamento com a organização, porém, alguns donatários por vezes não percebem com clareza quais são os objetivos e estratégias do Clima e Sociedade - o que pode mostrar que a comunicação com os grantees tem focado mais neles próprios e menos no iCS. É importante notar também que a falta de clareza sobre objetivos e estratégias institucionais é relacionada com uma questão de diálogo, e não de transparência – pois este foi outro quesito bem avaliado pelos participantes da pesquisa.

O processo de apresentação da proposta foi aspecto não tão bem avaliado, especialmente com relação ao quesito “tempo de resposta” - informação que aparece em diversos momentos e que gerou uma reformulação nos procedimentos internos do iCS para aprimorar. O quesito melhor avaliado sobre esta etapa foi a “compreensão dos critérios de seleção do iCS”. Na avaliação como um todo, vemos que diversos critérios relacionados com transparência foram bem avaliados e evidencia um bom desempenho da organização em um aspecto valorizado pelos donatários.

Com relação ao processo de monitoramento da doação: esta dimensão que obteve média 8,16 teve como aspecto melhor avaliado a periodicidade do relatório parcial. Entretanto, o uso do relatório para reflexão e aprendizagem foi o aspecto com baixa avaliação.

De modo geral, a percepção dos donatários em relação à atuação integral do iCS no campo também é bastante positiva. Os grantees sentem, especialmente, que seus objetivos e estratégias são bem compreendidos pela organização. Porém, a percepção dos donatários sobre a consciência que o Clima e Sociedade tem sobre os desafios que eles enfrentam não foi muito bem avaliada.

 

O quesito compreensão dos critérios de seleção do iCS também foi outro ponto positivo, avaliado com a média 8 – que evidencia a transparência e o bom desempenho institucional da organização. Na dimensão relacionada com o processo de apresentação da proposta para receber doação, avaliamos os critérios como envolvimento do iCS no decorrer da análise, tempo de resposta, monitoramento e solicitações de mudanças, o uso da plataforma online do Fluxx para solicitar um grant e registrar os detalhes de cada projeto. Este processo inicial – entre a formulação da proposta e o feedback institucional sobre a mesma – foi mais suscetível a críticas, pois alguns consideram demasiadamente longo, complexo e, em parte, redundante.

Outro destaque importante ainda sobre a dimensão relacionamento foi sobre o quão claramente comunicamos nossos objetivos e estratégias com os nossos donatários. Os grantees demonstraram um desejo maior de compreender a integralidade da atuação do iCS  - nacional e global - no campo das mudanças climáticas. “Esse foi um dado que nos chamou atenção e que gerou toda uma reflexão sobre comunicar melhor os objetivos e estratégias”, disse Martina.  Cabe ressaltar que, no primeiro semestre de 2018, o iCS contratou uma gerente especialista em comunicação responsável por viabilizar o diálogo institucional com a mídia e com os grantees, além de aprimorar os produtos jornalísticos (como a elaboração deste site novo e a boletim mensal).

Entre os donatários que participaram da pesquisa, percebemos que mais da metade (52%) receberam doações tanto em 2016 quanto em 2017, totalizando 32 grantees – o restante foi apoiado em apenas um dos desses anos. Em relação aos três portfólios existentes dentre esses dois anos, o apoio financeiro se deu de forma equilibrada. Podemos dizer o mesmo no que tange à diversidade de gênero. Observe os gráficos abaixo:

PERFIL DOS RESPONDENTES

Outro dado avaliou a autodeclaração racial dos respondentes, revelando 85% de indivíduos brancos e 2% pardos - enquanto 13% optaram por não dizer. Já na distribuição de cargos, houve predominância de posições de direção executiva na coordenação das organizações.  

Segundo a análise da consultora Martina, o perfil dos respondentes nas organizações donatárias parece reproduzir a desigualdade racial brasileira em espaços de poder, pois estamos diante um percentual quase nulo da presença de pessoas negras - principalmente quando se trata de cargos de liderança. Em contrapartida, a participação ativa de 46% mulheres é um ponto positivo, trazendo diversidade e princípio de igualdade ao cenário das organizações.

  

Entre diferentes percepções e avaliações pessoais, destacamos 16 depoimentos qualitativos importantes para a nossa análise – positiva, negativa e, sobretudo, construtiva - dos grantees em relação à atuação do Instituto Clima e Sociedade. Diante disso, eles também revelam sobre o impacto do iCS no campo das mudanças climáticas. A mais frequente percepção coletiva mostrou que a organização tem um papel direto e fundamental no desenvolvimento e no protagonismo dos donatários.

ELOGIOS

O iCS, em seu pouco tempo de história, já é referência em filantropia para um Brasil alinhado aos objetivos do Acordo de Paris. O apoio continuado do iCS ao trabalho da minha organização é extremamente relevante, porque o apoio é para toda a estratégia, e não parte dela - mesmo que os recursos cubram parte das despesas (todas as nossas doações são feitas com esta mesma lógica).

O Clima e Sociedade foi responsável por avançar a atuação com cidades dentro da organização. Conseguimos entender os desafios e oportunidades desse campo. Essa ajuda também foi fundamental para fortalecer os grupos que atuam com mobilidade na linha de frente.

O iCS tem atuado de forma brilhante no financiamento de projetos de pesquisa e na organização de eventos e seminários muito interessantes.

O iCS, fortemente sob a liderança da Ana Toni, conhece bem as dinâmicas das organizações da sociedade civil e os passos seguros a serem dados. Têm uma equipe sensível e criativa, o que torna bastante mais interessante as reflexões e alianças. Combinando afeto e qualidade, cada vez mais e melhor se torna um interconector entre apoiadores e apoiados entre as agendas públicas e privadas do Brasil. Vida longa ao Instituto Clima e Sociedade!

Em todas as oportunidades de reuniões, o iCS foi muito transparente, direto e aberto a discutir ideias - embora sempre tenha uma posição clara sobre os temas, está sempre aberto a ouvir e discutir. Quando tivemos problemas com os projetos, tanto no lado administrativo quanto no lado da execução técnico-política do projeto em si, sempre pudemos explicar claramente os desafios e sentimos compreensão e parceria por parte do iCS para buscar soluções em conjunto.

SUGESTÕES

Sugeriria que os processos de feedback de relatórios tivessem um prazo pré-estabelecido para que os donatários possam fazer acompanhamento e planejamento da finalização de projetos e/ou continuidade da doação/novo depósito de recursos.

Acompanhar mais de perto os financiados, de repente participar de um dos nossos encontros ou entender os desafios específicos que estamos passando e tentar apoiar de alguma forma.

Melhorar a comunicação com os grantees. Ter mais trocas com os grantees.

Organizar eventos para apresentar sua estratégia e programas a todos as organizações que recebem ou receberam apoio nos últimos tempos. Seria uma boa oportunidade também de workshops de colaboração entre as organizações.

Embora possa se pensar que não é uma sugestão, é uma: continuem com esse espírito aberto e construtivo. É sugestão porque é razoavelmente comum que as instituições percam certas características na medida em que crescem e/ou o tempo passa. Essa marca precisa vir para ficar. Não apenas para ser um exemplo nacional de instituição doadora, mas internacional.

 

CRÍTICAS

Que seja mais transparente e respeite mais as opiniões mais técnicas (e menos políticas); que equilibre sua visão entre o universo das ONGs, o conhecimento acadêmico e as organizações corporativas.

Espera-se haver oportunidade para apoios por prazos mais longos que os atuais (para 3, 4, 5 anos), o que, no campo das mudanças climáticas, é o que irá assegurar geração de impactos sustentados.

Ferramenta de inserção de relatórios online deveria ter todos os campos de texto editáveis em HTML bem simples, possibilitando linkar conteúdos de dentro do relatório para facilitar a navegação e garantindo uma formatação um pouco mais amigável para o relatório.

Acompanhar mais de perto os financiados, de repente participar de um dos nossos encontros ou entender os desafios específicos que estamos passando e tentar apoiar de alguma forma.

Creio que ainda faltam forças ao iCS de acompanhar as agendas locais e nacionais, mas que seria importante fazê-lo, buscando acompanhar o surgimento de iniciativas e coletivos com potencial transformador. Uma ação possível a ser realizada em paralelo a essa seria apoiar com mini-grants coletivos menos formalizados.

2017 foi um ano muito didático sobre como o contexto pode mudar muito rapidamente, e o balanço de forças que orientam decisões, também. É importante considerar-se parte das doações como recursos que podem ser utilizados com toda a flexibilidade necessária para permitir lidar com a fluidez deste contexto nacional.

 

 “Agradecemos muito aos donatários que disponibilizaram seu tempo e atenção para responder a nossa pesquisa e garantimos que todos os comentários geraram oportunidades de análise e debate interno, a partir da leitura das informações e encontros entre a equipe. Esperamos realizar outra pesquisa similar em 2019, pois esta é uma importante ferramenta para conhecermos as percepções de nossos donatários” - Martina Rillo e Luiza Souza, gerente de relações institucionais.

APRENDIZADOS E PASSOS FUTUROS

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