• iCS - Clima e Sociedade

Os extremos climáticos são o novo normal (e não adianta negar a realidade)


Reconhecida a seriedade da crise climática e seus impactos sobre a sociedade, é possível avançar na implementação das ações de adaptação.

Por Gustavo Pinheiro


No ultimo mês, o Rio de Janeiro voltou a enfrentar, desde a noite de segunda-feira, os impactos dos extremos climáticos. Mais de 300 milímetros de chuva caíram sobre a cidade em um período de 24 horas.


Foto: Pablo Jacob/Agência Globo

O que já seria uma condição extrema para qualquer cidade, se agrava no caso do Rio de Janeiro. A geografia particular da cidade, a ocupação desordenada de áreas de risco e a enorme deficiência de obras de infraestrutra contribuem para o agravamento da situação.


Enquanto o prefeito, Marcelo Crivella, aponta para a atipicidade da chuva, cabe avaliar que o fenômeno está cada vez mais presente no cotidiano dos cariocas. É previsto pelos modelos climáticos o aumento da frequência e intensidade de eventos extremos, como chuvas torrenciais concentradas em curtos períodos, que acentuam os impactos sobre a cidade e sua população.


A ciência já apontava como previsível, mas a pauta de mudança do clima nos governos segue “patinando”. Enquanto a prefeitura exibe flagrante despreparo, no nível federal a situação não é menos agonizante. A agenda climática nacional permanece sem governança e não é priorizada pelo Ministério do Meio Ambiente.

O Ministério é responsável pelo Plano Nacional de Adaptação, lançado em 2016 e que contou com a colaboração da sociedade e dos outros ministérios na elaboração. As metas estabelecidas pelo plano sequer foram incorporadas pelo atual ministro em seus planos para a gestão da pasta.


Porém, não adianta ignorar os fatos. A realidade se impõe. No caso da mudança do clima, a natureza é implacável. Ela não tem ideologia, respeita apenas as leis da física, que não podem ser alteradas por decreto nem por dogmas de quaisquer tipos.


Há muito a fazer, enquanto sociedade, para reduzir as vulnerabilidades da população e da infraestrutura aos impactos dos eventos climáticos extremos. Para começar é preciso reconhecer que temos um problema. Não estamos preparados para lidar com a nova realidade climática.


Reconhecida a seriedade da crise climática e seus impactos sobre a sociedade, é possível avançar na implementação das ações de adaptação. O Plano Nacional de Adaptação apresenta nove metas das quais seis sob responsabilidade do Ministério do Meio Ambiente - que são o ponto de partida para as ações de adaptação à mudança do clima no Brasil.

É urgente que o Plano Nacional de Adaptação seja reconhecido pelo novo Ministro como instrumento de promoção da redução da vulnerabilidade aos efeitos da mudança do clima. Sua priorização possibilitará avançarmos na gestão dos riscos associados aos fenômenos climáticos extremos. O enfrentamento da mudança climática requer ações coordenadas entre os três níveis de governo, e começa com o reconhecimento da seriedade e urgência da crise climática.


Gustavo Pinheiro é coordenador de Economia de Baixo Carbono no Instituto Clima e Sociedade

iCS - Instituto Clima e Sociedade 2020 | Todos os direitos reservados

  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube
  • LinkedIn ícone social