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O momento da construção

Atualizado: Jan 19

Ana Toni, diretora-executiva do iCS, inicia o ano desejando união, resistência e o sonho de construirmos as bases necessárias para superarmos nossos desafios.


Em 28 de agosto de 1963, como parte de seu discurso nos degraus do Lincoln Memorial em Washington, D.C., o pastor Martin Luther King falou: “I Have a Dream”. A frase é famosa, assim como aquele dia, que se tornou decisivo na história do Movimento Americano pelos Direitos Civis. De toda forma, optei por abrir este texto com ela porque o ano que inicia clama não apenas por resistência, mas também pelo sonho de reconhecer nossos desafios e construir as bases que necessitamos para superá-los.


O ano de 2020 foi intenso e particularmente difícil. A COVID-19 já ceifou mais de 2 milhões de vidas pelo mundo, trouxe dor e luto a inúmeras famílias e afetou psicologicamente pessoas de todas as idades, crenças e setores. Apenas no Brasil, mais de 200 mil vidas perdidas, total falta de planejamento, campanhas de desinformação e despreparo pela falta de política pública coerente e eficaz. Sofremos, lutamos e nos indignamos juntos, mas também aprofundamos as relações entre sociedade civil organizada e a sociedade e promovemos ações concretas de ajuda e solidariedade.


O ano de 2020 também demonstrou a força, resiliência, criatividade e habilidade da sociedade civil em resistir ao desmonte das políticas públicas e do Estado de direitos. Os povos indígenas e o movimento negro lideraram esta resistência, mas outros movimentos, como o movimento ambiental e climático também responderam de maneira contundente.


Ao refletir sobre esta mensagem, fiquei me perguntando o que teria sobrado da agenda ambiental e climática sem a resistência da sociedade brasileira nestes últimos dois anos? O quanto mais de desmatamento, o quanto mais de mortes de indígenas, negros ou ativistas ambientais teríamos testemunhado? Quantas tentativas de enfraquecimento de leis, processos administrativos teriam passado sem ninguém perceber ou reagir? Com certeza, sem a sociedade civil, a boiada teria passado silenciosamente e passivamente. Mas não foi o que vimos em 2020. Vimos uma sociedade civil diversa, alerta, combativa e resiliente lutando contra retrocessos a direitos conquistados. Vimos empresários, banqueiros, prefeitos, governadores, congressistas, juristas publicamente se posicionando, muitos pela primeira vez, por ações antirracistas ou pela preservação da Amazônia.



Homenagear a sociedade civil, os movimentos sociais, a mídia brasileira e também os novos atores que entraram de vez e de forma explícita nesse embate, é não só uma forma de aplaudir o exuberante enfrentamento ao desmonte planejado pelo governo federal, mas também uma forma de proclamar o sonho de novo futuro para o Brasil. Um futuro de um Brasil mais justo e menos desigual, com instituições democráticas sólidas e políticas públicas baseadas em dados e ciência, menos polarizado e mais humano e responsável, uma economia sustentável ambientalmente e socialmente e um Brasil mais uma vez protagonista na luta global contra as mudanças climáticas. O que precisamos não é a volta ao passado, mas sim a construção de novos futuros.


Percebemos, mais do que nunca, que as mudanças acontecem em lugares reais, com pessoas reais, e por isso é urgente que em 2021 sejamos capazes de implementar de forma concreta, em cada um dos municípios, em cada um dos Estados, em cada uma das empresas ou instituições, os pilares dos novos futuros.


O tempo da retórica acabou.


Agora, a ação deve ser a protagonista, tanto para continuar resistindo ao desmonte da agenda democrática e socioambiental no Brasil, como para construir e implementar os passos futuros. Apesar de nunca termos saído oficialmente do Acordo de Paris, perdemos rapidamente uma construção de décadas de protagonismo ambiental e climático no mundo. É imprescindível resgatá-lo, se não via agenda federal, pelos esforços e posicionamentos em parceria com os novos atores engajados (que, agora, precisam incorporar preceitos climáticos e ambientais diretamente em seus modelos de negócio ou nas suas políticas públicas locais). Será uma construção coletiva da sociedade brasileira, e acreditamos que ela está preparada para isso.


Há alguns dias tivemos, diretamente da capital dos Estados Unidos, um triste exemplo do que a manipulação das pessoas, o descaso com a ciência ou a verdade, o descontrole do Estado e o armamento podem fazer. As cenas de invasão do Capitólio, no maior atentado à democracia da história moderna norte-americana, deve funcionar como alerta ao Brasil para solidificar suas instituições, fortalecer a sua sociedade e qualificar a política. As eleições de 2022 batem à porta, afinal.


Por fim, mas com toda a deferência, agradecemos imensamente a todos os nossos parceiros e financiadorespela sua confiança, cumplicidade e tenacidade nesta trajetória coletiva. Não tenho dúvida que, juntos, construiremos os novos futuros que sonhamos e que precisamos para combater as mudanças climáticas.


Ana Toni

Diretora-Executiva do Instituto Clima e Sociedade

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