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Novo sumário do IPCC traz urgência, perdas e danos, ameaça à segurança hídrica e Amazônia em risco

Impactos climáticos já são irreversíveis em muitos casos e quase 50% da população global vive em regiões altamente vulneráveis, diz relatório. Inação dos países é inadmissível.


Poucos dias após mais uma tragédia humana no Brasil desencadeada por evento climático extremo - as chuvas que assolaram Petrópolis (RJ) e vitimaram centenas de pessoas, deixando outras tantas desabrigadas -, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas) divulgou o segundo volume do Sexto Relatório de Avaliação (AR6). Com sumário finalizado em meio à guerra da Ucrânia e desentendimentos entre governos e cientistas, o texto é categórico: os impactos da mudança do clima causada pelos seres humanos já provocaram perdas e danos para as pessoas e para os ecossistemas.


Crédito: Agência Brasil

Crédito: Agência Brasil


Por exemplo, não apenas reduziu o crescimento econômico, como ameaça a segurança alimentar e hídrica. Ou seja, risco real para o atingimento das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU para 2030. A Amazônia também foi nominalmente citada: na região, os impactos do clima e do desmatamento unem forças capazes de gerar perdas irreversíveis de serviços ecossistêmicos e biodiversidade em um cenário de 2oC de aquecimento.


O que todos já sabiam agora está na letra de um dos relatórios mais importantes sobre clima já publicados: os impactos são mais graves entre as populações urbanas marginalizadas, como para os moradores de favelas. O número de mortes por secas, enchentes e tempestades foi 15 vezes maior na última década em regiões mais vulneráveis do que nas menos, conta o Observatório do Clima. Estes termos, aliás, ocupam o lugar de “países mais vulneráveis” e “países menos vulneráveis”, uma das manobras dos governos negociantes que evitam a responsabilização individual e suavizam algumas tintas da emergência.


A imprensa brasileira e mundial repercute o material divulgado nesta segunda-feira, dia 28. De acordo com o G1, “o documento alerta que, para evitar a perda crescente de vidas, biodiversidade e infraestrutura, é necessária uma ação ambiciosa e acelerada para se adaptar às mudanças climáticas, com cortes rápidos em emissões de gases de efeito estufa”. A expressão “perdas e danos”, aliás, foi mantida, uma vitória do painel frente aos Estados Unidos, que se opunham à sua utilização.


As perspectivas não são nada animadoras: as crianças de hoje que estiverem vivas em 2100 podem vivenciar quatro vezes mais extremos climáticos do que atualmente com apenas alguns décimos extras de aquecimento. No cenário de 2oC, serão cinco vezes mais ondas de calor, secas, tempestades e inundações. Aliás, explicam os cientistas, a cada 0,1oC de aumento médio da temperatura, maior o número de mortes por estresses de calor, problemas pulmonares e cardíacos, doenças infecciosas e causadas por mosquitos e fome.


O documento vai além e coloca números reais em frente aos nossos olhos, repercutidos em reportagem do jornal O Globo: “Entre 3,3 bilhões e 3,6 bilhões de pessoas vivem em contextos que são altamente vulneráveis à mudança climática”, diz o documento. Ainda assim, o termo “injustiça climática” foi retirado da versão final, um banho de água fria na sociedade civil, que fez deste o tema mais relevante da última COP, em Glasgow.


No primeiro resumo do AR6, os cientistas mostraram que, em qualquer cenário de emissão, a temperatura global ultrapassará 1,5oC de aumento nos próximos 20 anos, voltando a ficar abaixo desse limite em apenas um deles. No Valor, Daniela Chiaretti escreve: “Com aquecimento de 1,5°C, o mundo enfrenta inevitáveis riscos climáticos múltiplos durante as próximas duas décadas. Mesmo excedendo apenas temporariamente o limite de 1,5 °C – porque os gases-estufa permanecem por décadas na atmosfera – alguns impactos do aumento da temperatura serão irreversíveis.”


Em relação à adaptação, o relatório diz que, sem algumas delas, os impactos de hoje já seriam maiores. As medidas, no entanto, são tomadas em escalas pequenas, em função da falta de financiamento robusto. A distância entre o que deve ser feito e o que está sendo feito aumenta a cada dia. Há também estratégias consideradas equivocadas, como a adoção de agricultura irrigada e a construção de hidrelétricas em regiões sujeitas a secas.


O secretário-geral da ONU, António Guterres, resumiu o sumário:


“O relatório de hoje do IPCC é um atlas do sofrimento humano e um indiciamento por fracasso na liderança climática. Quase metade da humanidade está vivendo na zona de perigo, agora. Muitos ecossistemas estão num caminho sem volta, agora. A poluição desenfreada por carbono empurra os mais vulneráveis do mundo em uma marcha forçada para a destruição, agora. Os fatos são inegáveis. Essa abdicação de liderança é criminosa”.