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Entrevista Ricardo Lima: Leilões de Eficiência Energética

Atualizado: 11 de Jun de 2019

Consultor do iCS para assuntos relacionados ao estado de Roraima e eficiência energética, explica como os leilões fazem sucesso no mundo e como podem contribuir para a economia e redução de emissões do Brasil


Por Felipe Lobo



Adotado em várias partes do mundo, o Leilão de Eficiência Energética está perto de chegar ao Brasil – um projeto-piloto –, apoiado pelo iCS, deve acontecer em Roraima tão logo a ANEEL defina sua regulamentação e as bases de realização. No dia 31 de maio, tivemos o 1º Leilão do Sistema Isolado - Boa Vista, que foi o primeiro realizado no governo do presidente Jair Bolsonaro. O resultado obtido foi a contratação de 48, 6 MW médios de energia inflexível a preço médio de R$833/MWh.


Ricardo Lima, consultor do Instituto Clima e Sociedade para assuntos relacionados ao estado de Roraima e eficiência energética, explica a importância do mecanismo e as oportunidades para o Brasil.


iCS: O que é, exatamente, um leilão de eficiência energética?

Ricardo Lima: Em muitos lugares do mundo a eficiência energética concorre diretamente com projetos de geração de energia, porque é muito importante diversificar a matriz energética – e, claro, a eficiência é essencial para a redução das emissões de gases de efeito estufa. É isso o que o iCS vem tentando fazer ao lado da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), permitir que a eficiência energética concorra nos leilões em igualdade de condições com a geração.


iCS: O primeiro piloto de leilão de eficiência energética está previsto para Boa Vista (Roraima). O que pode-se esperar dele e o que falta para que aconteça?

Ricardo Lima: O mecanismo de leilão de eficiência é adotado em várias partes do mundo e é um mecanismo de grande sucesso, concorrendo de maneira “eficiente” com a expansão da geração de energia. O leilão previsto para Roraima é ainda um teste e de pequena escala (apenas 4 MW), além de ser sozinho (ou seja, não concorre ainda com a geração energética, como novas usinas termoelétricas, hidrelétricas, eólicas ou solares), mas sinaliza um grande avanço para que a eficiência energética ocupe o espaço necessário na matriz energética nacional. Falta apenas que a ANEEL defina a regulamentação e as bases para sua realização.


iCS: O que é necessário ocorrer em termos de regulação para que os leilões se tornem mais frequentes? Há alguma barreira impeditiva?

Ricardo Lima: As barreiras existentes hoje residem basicamente na falta de regulamentação. Os recursos arrecadados dos consumidores através da tarifa para aplicação pelas concessionárias em programas de eficiência e que não foram aplicados superam R$ 1,8 bilhões. Ou seja, não estão sendo usados de forma “eficiente”. O leilão previsto para Roraima seria uma forma de testar o mecanismo que poderia, com os devidos ajustes, ser adotado em todo o país, otimizando os recursos energéticos e a eficiência no uso da energia.


iCS: Que consequências/negócios podemos esperar desse tipo de mecanismo, no que diz respeito à geração de emprego, redução no consumo de energia, redução das emissões de GEE (Gases de Efeito Estufa), e mesmo participação de novos atores do setor?

Ricardo Lima: A energia economizada é a que tem o menor índice de emissões de GEE. Quanto à geração de empregos, negócios, novos atores, seu potencial é imenso. Temos um enorme potencial, ainda pouco desenvolvido, apesar dos esforços tentados desde a década de 1970, para que a eficiência energética ocupe o papel de destaque que merece e que o país tanto necessita. Por exemplo, os leilões podem dar um impulso mais concreto ao mercado de ESCOs (Energy Service Companies), que ainda não se desenvolveu de maneira madura no Brasil até hoje. E a participação mais ativa do consumidor final como fonte de energia efetiva é fundamental.


iCS: Quais outros mecanismos e setores do mercado são favorecidos quando há leilões de eficiência energética?

Ricardo Lima: Todo mecanismo concorrencial traz eficácia e eficiência nos usos dos recursos, desde que bem gerenciado e realizado de maneira clara e transparente. Encarar a eficiência energética como uma fonte de recursos energéticos é um avanço necessário, um passo que precisamos e devemos dar. Isso beneficia o consumidor, com menores custos, beneficia a indústria de equipamentos, beneficia a geração de empregos, e assim por diante.

Isso porque, quando se faz uma usina térmica, eólica ou solar, por exemplo, há um número limitado de equipamentos e de empregos, restritos a uma área geográfica. A eficiência energética oferece uma gama muito maior de engenharia, sistemas, diversificação de equipamentos e geração descentralizada de empregos no país. Mas é sempre importante lembrar que a eficiência energética não substitui, apenas diversifica a matriz.


iCS: Como você enxerga o debate do tema no país, e o que esperar para o futuro?

Ricardo Lima: O debate de eficiência energética avançou bastante nos últimos anos, e o iCS tem um papel muito importante nisso, promovendo debates na EPE e no ministério. Espero que o mecanismo seja considerado e adotado no médio prazo pelo menos, dentro do planeamento do país. Não há impeditivo para isso, só falta vontade política.


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