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Qual tem sido o impacto da Covid-19 no setor de energia no Brasil?

Por Roberto Kishinami

No primeiro mês em que vigoraram medidas de proteção estabelecidas pelos governos estaduais (com início em 17 de março), a pandemia levou a uma queda de 15% na demanda geral de eletricidade. No momento, o setor prevê que 2020 terminará com um excedente aproximado de 12% nos contratos de geração de energia assinados pelas concessionárias de distribuição e que o consumo só deve voltar aos patamares de dezembro de 2019 no início de 2024. O impacto econômico da queda na demanda tem duas vertentes: i) a primeira em relação à geração: o preço à vista da eletricidade (denominado PLD) caiu para aproximadamente US$8/MWh em todos os mercados, de um patamar que variava entre US$30/MWh e US$50/MWh nas semanas anteriores à pandemia; ii) e a segunda é relacionada ao consumo: soma-se à significativa queda observada no consumo um índice de inadimplência de 20% no pagamento das contas mensais no mercado residencial. Número que ainda vai aumentar, uma vez que a ANEEL, agência reguladora do setor no país, emitiu uma liberação para que os consumidores de baixa renda sejam isentos do pagamento da conta de energia de abril a junho de 2020. À medida que a taxa de desemprego cresce (antes da pandemia, era de 11%, ou 12 milhões de pessoas), o consumo e a inadimplência nas contas de serviços públicos devem aumentar também. As concessionárias de distribuição exigem apoio imediato do governo. Há duas possibilidades em consideração. A primeira, uma linha de crédito sindicalizada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES): um empréstimo entre US$ 4 bilhões e US$ 5 bilhões, a ser pago pelos consumidores de eletricidade nos próximos cinco anos (60 meses). A segunda alternativa, que pode ser combinada com a primeira, é redirecionar os fundos obrigatórios de P&D (Pesquisa & Desenvolvimento) e eficiência energética, registrados nas concessionárias de distribuição e supervisionados pela ANEEL, para cobrir o déficit criado pelos clientes de baixa renda, avaliado em aproximadamente US$ 1,4 bilhão, considerando os três meses de isenção. Acredita-se que a Transição Energética será consideravelmente impactada pela crise atual, devido à paralisação na expansão da geração centralizada. O setor de energia brasileiro é baseado em leilões reversos, e a demanda prevista anteriormente (a partir do crescimento médio do PIB de 2,7% até 2025) já estava totalmente contratada. O excedente de energia no futuro próximo levará a um movimento de fusões e aquisições no setor, favorecendo, espera-se, as fontes renováveis. A direção das mudanças dependerá das decisões de curto prazo do governo.

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