• iCS - Clima e Sociedade

Um hub plural pela agenda do clima

Entenda como foi construído, desde a COP25, em Madri, o espaço da sociedade brasileira que deu o que falar na conferência de Glasgow


Cintya Feitosa


Para falar do Brazil Climate Action Hub na COP26, é preciso voltar no tempo. Mais do que um espaço físico, logo após a COP25 em Madri, em 2019, o Hub seguiu como um espaço permanente de troca de informações sobre a agenda internacional do clima e de consultas sobre a preparação da COP26. Em quase dois anos, entre uma conferência e outra, com a facilitação do Instituto Clima e Sociedade (iCS), Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Instituto ClimaInfo e diversos parceiros, o Hub se tornou um espaço de debate sobre as mais variadas questões que pudessem ter impacto na conferência deste ano — do fechamento do livro de regra do Acordo de Paris, passando pelas eleições norte-americanas até a atualização da NDC brasileira e o papel de cidades e estados na agenda.


Nesse período, buscamos captar o espírito desta iniciativa. O que descobrimos foi que a maior marca do espaço é ser um ponto de encontro para boas conversas, com uma abordagem multissetorial, plural, aberta e muito respeitosa. Um espaço de troca em que todas as pessoas e organizações envolvidas têm em comum um olhar para uma agenda de futuro do Brasil, voltada para soluções, cada um considerando o seu papel. O que já tinha sido uma marca em Madri, se fortaleceu na articulação e ficou evidente na COP 26.


Com o apoio de diversos parceiros, a construção da agenda buscou refletir a diversidade da sociedade brasileira, apresentando debates a partir das perspectivas da sociedade civil - não só os tradicionalmente ambientalistas, mas também outros grupos, como o movimento negro -, dos governos de cidades e estados, do setor empresarial, dos povos indígenas e populações tradicionais, das juventudes. Outra marca forte do Hub foi a presença expressiva de parlamentares e organizações que trabalham com o legislativo, numa reflexão sobre os próximos passos de implementação do Acordo de Paris no contexto brasileiro.


Impacto da pandemia


Essa foi uma COP totalmente atípica. Por um longo período, as discussões do Hub giraram também em torno do impacto da pandemia sobre a agenda de clima e até mesmo para disseminar informações logísticas sobre a Conferência, entre seu adiamento em 2020 e sua confirmação como evento presencial.


As incertezas dos meses anteriores à COP26 dificultaram o período final de articulação, quando as organizações estavam sobrecarregadas pela questão logística. Até bem perto do evento, no início de outubro, o Brasil ainda estava na lista vermelha para entrada no Reino Unido, o grupo de países que enfrentavam as maiores restrições de viagem por conta da pandemia de covid-19.


Com tantas indefinições logísticas, nosso papel também foi o de buscar manter ativo o debate sobre estratégia e negociações, e adotar medidas que pudessem incluir quem ficaria de fora da conferência diante de tamanhos obstáculos. Um exemplo é a transmissão de todos os eventos abertos que aconteceram no Brazil Climate Action Hub, disponíveis agora no site da iniciativa.


Felizmente, como resultado de muitos esforços, o que ocorreu na prática foi um número de participantes e visitantes muito maior do que imaginado meses antes da conferência, o que nos exigiu também maior flexibilidade para acomodar agendas que antes não estavam previstas, ampliando assim a pluralidade e representatividade dos debates.


Com o fim da COP 26, a avaliação é de que o Brazil Climate Action Hub mais uma vez se tornou a casa dos brasileiros na conferência. A sociedade brasileira se mostrou resiliente, vibrante e ávida por olhar para uma agenda de futuro. Precisamos aproveitar esse momento para construir caminhos possíveis. No próximo ano, o desafio é manter essa rede ativa, viva, cada vez mais próxima da agenda internacional, que agora demanda acompanhamento da implementação do Acordo de Paris e dos compromissos assumidos por diversos atores ao longo dos últimos dois anos.