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Mudanças climáticas: temos de pagar a conta e aproveitar a oportunidade

Empresas têm de rever seus modelos de negócio e publicações de resultados financeiros, para que considerem riscos e oportunidades relacionados à mudança do clima


Por CARLA SCHUCHMANN E GUSTAVO PINHEIRO*


Foram muitos os anúncios de compromissos do setor privado divulgados durante a Conferência de Ação Climática, organizada pelo secretário Geral das Nações Unidas, que reuniu a elite política e econômica mundial em Nova Iorque em setembro. Um grupo de 16 grandes fundos de pensão e seguradoras reunidos na AOA (Net-Zero Asset Owner Alliance), responsáveis conjuntamente pela gestão de US$ 2,4 trilhões, comprometeu-se com portfólios de investimento neutros em carbono até 2050. Em outra frente, as 373 empresas de investimento reunidas no Climate Action 100+ (criado em 2017) divulgaram seu primeiro relatório -- esses investidores vêm tentando influenciar 161 companhias globais (incluindo Petrobras, Suzano e Vale) a tornar suas operações mais limpas (implementando as recomendações da TCFD, Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima, publicadas pelo FSB, Conselho de Estabilidade Financeira). O desafio da mudança do clima e a urgência de ação não podem mais ser ignorados.

De acordo com um relatório recente do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), as emissões globais de gases de efeito estufa precisariam atingir o pico até 2020 e diminuir rapidamente a partir daí, para limitar o aumento da temperatura média global a 1,5° C acima dos níveis pré-industriais.Combinando os efeitos da mudança do clima nos retornos de longo prazo de investimentos, observa-se que as avaliações de risco atuais não consideram adequadamente os riscos relacionados ao clima, devido à divulgação limitada de informações.


Investidores precisam de melhores informações sobre como as empresas estão se preparando para uma economia de baixo carbono. As empresas que avaliam e divulgam riscos relacionados ao clima possuem uma vantagem competitiva. Quem se mexeu antes já começa a colher benefícios em valor de mercado. No mercado de títulos de dívida pública e privada também se observa um movimento da alocação de ativos, gradativamente se alinhando com os objetivos do Acordo de Paris. As emissões de títulos verdes vêm crescendo no mercado mundial ano após ano e no Brasil também se observa este movimento.

As emissões de títulos verdes em 2019 alcançaram US$ 186 bilhões até a primeira semana de outubro e superaram o volume de todo o ano de 2018. A Climate Bonds Initiative (CBI) estima um montante de US$ 250 bilhões até o final deste ano (são números dignos de respeito, mas ínfimos se comparados ao total de títulos emitidos no mercado americano, de US$ 2,4 trilhões em 2018). A América Latina responde por apenas 2% das emissões globais de títulos verdes, lideradas por Europa e Ásia.


O Brasil mantém a liderança na região: do total de US$ 13,3 bilhões em títulos verdes emitidos desde 2014 na América Latina, o país foi responsável por US$ 5,8 bilhões, contra US$ 3,1 bilhões do Chile e US$ 1,8 bilhão do México. São números tímidos para um continente que precisa urgentemente gerar empregos e melhorar a infraestrutura. O avanço dos ativos descarbonizados, ou em conformidade com os objetivos do Acordo de Paris, pode representar uma grande oportunidade para retomar o investimento produtivo e a rota do crescimento econômico no Brasil. Há uma enorme gama de oportunidades de investimento na economia de baixo carbono ainda não explorada.

Dmitri Kessel/The LIFE Picture Collection/Getty Images

A maioria dos investimentos realizados até agora tem se concentrado nos setores de uso da terra, particularmente em florestas plantadas para papel e celulose. O setor de energia renovável, que apresentou grande crescimento nos últimos anos com a queda de preços de equipamentos para geração eólica e solar fotovoltaica, também se destaca na demanda por capital. Há ainda grandes oportunidades nos setores de transportes (notadamente na modernização e eletrificação de frotas de transporte público), saneamento (ainda distante da universalização dos serviços de água e esgoto), coleta e reciclagem de resíduos. Setores que dependem de revisões regulatórias e poderiam alavancar centenas de bilhões de reais em investimentos nas próximas décadas, contribuindo para a retomada da economia e gerando uma série de co-benefícios em ganhos de produtividade e redução de despesas com saúde pública. Recentemente o ex-Ministro da Fazenda Joaquim Levy propôs em artigo que “a partir de 2020 os instrumentos financeiros, instituições e regulações devem estar alinhados com a emissão líquida zero de Carbono na atmosfera, e que se não, devem ter planos para alcançar este alinhamento”. É uma forma elegante de indicar um objetivo específico para que o setor financeiro compreenda o tamanho e urgência do desafio.

Com o objetivo de engajar e capacitar investidores profissionais para que alcancem a descarbonização de seus portfólios, alinhando-os com os objetivos do Acordo de Paris, foi lançada em São Paulo em Outubro a iniciativa Investidores Pelo Clima (IPC), sob Coordenação Técnica da Sitawi em parceria com CDP, Instituto Clima e Sociedade e Principles for Responsible Investments (PRI, uma das redes internacionais de investidores que apóia a Climate Action 100+). No primeiro encontro, foi discutida a relação entre mudanças climáticas, economia e investimentos, e os caminhos para a descarbonização de portfólios no Brasil em diversas classes de ativo -- sem perda de rentabilidade. Foram ainda identificados apoios necessários para o investidor nacional atuar nessa agenda, a ser implementada nos próximos meses. O mainstream financeiro já acordou para a urgência de combater o aquecimento global, sob risco de pesadas perdas econômicas. A incorporação do risco climático à precificação de ativos financeiros é uma medida indispensável à proteção dos interesses dos investidores.

*Carla Schuchmann é gerente de Finanças Sustentáveis da Sitawi – Finanças do Bem; Gustavo Pinheiro é coordenador do Portfolio de Economia de Baixo Carbono do Instituto Clima e Sociedade


Este artigo foi originalmente publicado no portal do Época Negócios, no dia 17 de dezembro de 2019.

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