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Entrevista: Leonardo Lacerda, presidente do Conselho do iCS e diretor da Oak Foundation

Leonardo Lacerda é presidente do Conselho do iCS e diretor de Meio Ambiente da Oak Foundation, em Genebra, na Suíça. Durante um bate-papo de uma hora com o iCS, ele falou sobre a importância da sociedade civil na formulação de políticas públicas que fortaleçam a visão de economia de baixo carbono, além da liderança climática que o Brasil pode, e deve, exercer no cenário internacional nesse século. Confira abaixo a entrevista.

iCS: Quais são, na sua visão, os principais desafios do Brasil e do mundo da perspectiva climática, e como o iCS pode ajudar a enfrentá-los?

Leonardo Lacerda: A temperatura média do planeta tem aumentado muito rápido e ainda sequer atingimos o pico das emissões de gases de efeito estufa, que continuam aumentando. Já temos o grosso da tecnologia para fazermos a mudança, e o preço de novas tecnologias tem caído surpreendentemente, principalmente na produção de energia eólica e solar. O desafio, porém, é como acelerarmos o processo de transformação: como descarbonizar a tempo de impedirmos os cenários mais catastróficos das mudanças climáticas? Como transformar uma economia global ainda tão dependente em carvão mineral e petróleo? Em relação ao Brasil, um desafio importante é como manter baixas as taxas de desmatamento e sobretudo como conter o crescimento rápido de emissões de outros setores que têm recebido pouca atenção, principalmente os setores de transporte e energia.


Outro desafio é a inação por falta de visão. Faltam liderança e ideias que inspirem. O Estado brasileiro perdeu a capacidade de pensar a longo prazo. Ao invés de concebermos a questão climática como apenas desafio e aumento de custo, temos uma grande oportunidade diante de nós: o Brasil tem tudo para se transformar em um país líder em desenvolvimento limpo, conquistar mercados e servir como exemplo. Mas os lobbies e os cartéis no país não têm ajudado nesse processo. Temos visto no Brasil, por exemplo, como a indústria automobilística se opõe a projetos de mobilidade urbana e a uma rede ferroviária eficiente. Ou como as grandes construtoras criam obstáculos à adoção de um sistema distribuído de produção energética, incluindo fontes de energia renováveis como eólica e solar que criem emprego e renda; que produzam energia na hora de pique; e sejam mais próximas dos centros urbanos brasileiros, com menor custo de distribuição.

A sociedade civil organizada e o iCS, que tem como um dos objetivos catalisar o pensamento sobre a forma de descarbonizar a economia brasileira, podem ajudar a suprir essa falta de visão a longo prazo. A sociedade civil já provou que pode fazer isso: ela teve um papel crucial a identificar soluções que levaram à redução de desmatamento, uma das maiores vitórias para o Brasil e o mundo.


iCS: O que você achou da INDC brasileira? Como o Brasil se comportou no Acordo de Paris? Quais são as perspectivas de aqui para frente?

L.L.: Acho que a sociedade civil foi capaz de monitorar as emissões no Brasil de forma mais competente que o próprio governo, o que mostra sua capacidade de influenciar de forma positiva a diplomacia brasileira, por exemplo por meio do SEEG [Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa].


O país estar entre as 10 maiores economias no planeta conta. Foi o primeiro país em desenvolvimento que teve uma redução absoluta em suas emissões. Onde existe liderança, há resultado. Mas em Paris o Brasil contou muito com os louros do desmatamento. O que me preocupa agora é o contínuo e rápido crescimento das emissões brasileiras em setores da economia que tem a ver com a sociedade mais urbanizada: os setores energético e de transporte.


Em um país com tanto sol e tanto vento, é patético não darmos o exemplo. Se a Alemanha foi capaz de mostrar como avançar nessa questão de transformação energética em um país sem sol, o Brasil pode fazer melhor. É normal que os alemães pagassem o custo da inovação, mas agora com os preços baixos, não há porque continuarmos a esperar para operarmos a descarbonização ainda mais rápida de nossa economia.


iCS: Um recente estudo publicado na Nature falou que se todas as metas nacionais forem cumpridas ainda teremos aumento de 3,1°C até o final do século. Como você enxerga esse cenário?

L.L.: Paris foi uma dança diplomática, mas a maioria dos compromissos ainda é conservadora. Passada essa fase inicial de criar um sistema de confiança mútua no sistema multilateral de negociações, podemos ter a esperança de que, no momento de repensar essas metas, os países possam se comprometer a mais.


O iCS e seus parceiros devem assegurar a pressão social para que o Brasil lidere esse processo de ratificação. Espero que o Brasil mostre que o show de abertura das Olimpíadas não foi apenas um Carnaval, que o Brasil lidere não só no falar, mas também no agir. A segunda área é assegurar o monitoramento e a implementação dos planos climáticos que o Brasil já fez, tanto setoriais quanto nacionais. E terceiro é ajudar as várias agências do governo federal, os estados e as prefeituras para termos um planejamento de real descarbonização da nossa economia, trazendo setores dinâmicos da iniciativa privada.


É um bom momento para a indústria e a sociedade civil repensarem o modelo de desenvolvimento do Brasil. Nesse momento crucial em que temos que conviver com um mundo que restringe a quantidade de carbono que podemos lançar na atmosfera, as vantagens competitivas entre as nações se modificam. O iCS deve reunir os vários atores e facilitar esse processo de repensar a economia brasileira num mundo em que a economia limpa vai ter um papel primordial. É hora de reavaliarmos nossas vantagens comparativas e competitivas nesse contexto e reorientarmos a criação de emprego e o desenvolvimento às áreas dinâmicas, que nos impulsionem para fora da atual “armadilha de país de renda média” em que nos encontramos.


iCS: O iCS é parte de uma rede de organizações do ClimateWorks que capta recursos e faz doações para projetos climáticos. Qual o valor agregado por esse tipo de instituição?

L.L.: Primeiro, vendo o papel de intermediação, é muito valioso por vários motivos. Apesar de ser uma rede internacional, essas organizações foram construídas de forma bastante independente, com conselhos formados por pessoas do próprio país ou região, voltados para o desenvolvimento nacional, que não podem ser questionados por estarem representando interesses ou visões estrangeiras. Isso é muito importante não só para os setores políticos e econômicos locais, mas também para os próprios doadores, porque eles sabem que o que está sendo proposto está vindo de uma agenda nacional, e tem uma possibilidade de impacto muito maior.


O segundo ponto é alavancar outros recursos e assegurar que os projetos estejam feitos de forma coordenada entre várias organizações, de tal modo que suas contribuições individuais reflitam as suas vantagens comparativas e os nichos específicos que ocupam, para que possam assim dar o melhor de si e realizarem objetivos mais altos e ambiciosos.


Outro aspecto é a capacidade de atuar em rede de modo a compartilhar as lições e tecnologias aprendidas. Por exemplo, Curitiba desenvolveu um sistema de transporte urbano excepcional que é copiado e melhorado na Índia, na China e em vários outros lugares. Fazer parte dessa rede de aprendizado gera enorme possibilidade de impacto, com a criação de um movimento global que empurre os países a se comprometerem a metas mais robustas.


iCS: Uma das funções do iCS é engajar a filantropia nacional e internacional. Qual você imagina que é o melhor caminho para fazer isso?

L.L.: Para a filantropia internacional, o eixo econômico global está claramente mudando para a Ásia, e os desafios de pobreza e desenvolvimento atraem o interesse sobretudo para a África. É muito difícil argumentar que a filantropia tenha que canalizar recursos para a América Latina. Um dos contra-argumentos em que tenho insistido para atrair outros doadores é a criatividade da América Latina. Nossa região tem identificado várias respostas aos desafios globais. A modernização da agricultura nos trópicos feita pela Embrapa; o monitoramento de desmatamento por satélite que foi feito na Amazônia; o BRT de Curitiba; ou o SEEG [Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa] são alguns dos muitos exemplos de savoir faire desenvolvidos aqui, com repercussão e impactos internacionais.


Quanto à filantropia nacional, há muito o que fazer. Afora algumas louváveis exceções, o setor pensa miúdo pois está preso a uma agenda própria. A filantropia no Brasil é incipiente, mas não só por falta de dinheiro. Cada ator só olha para o seu jardim. Da mesma forma como os brasileiros ricos vivem em encarceramentos suntuosos, vejo a filantropia brasileira vivendo em condomínios fechados, em que cada ator busca uma solução local que satisfaça as necessidades de seu marketing corporativo ou de seu projeto pessoal. O momento político do país nos obriga a repensarmos como usar os recursos de forma mais eficiente. Dois desafios cruciais, sem dúvida, aos que a filantropia nacional está sendo intimada a contribuir, são os de repensarmos a nossa democracia representativa bem como a nova economia. O que eu sinto no Brasil é que os atores político-econômicos estão sempre tentando seguir modelos já trilhados por outros. Os grandes momentos da história de desenvolvimentos civilizatório demonstram que liderança advém do esforço de buscar caminhos novos, ainda não traçados. O Brasil tem essa capacidade criativa. Podemos reinventar a economia e a política, podemos imaginar futuros.


iCS: A questão climática fica à margem da filantropia nacional. Como essa baixa adesão no Brasil impacta o iCS?

L.L.: Há exceções que estabelecem bons exemplos, como o Instituto Arapyaú, que tem demonstrado um impacto formidável. Mas de alguma forma essas instituições operam em nichos. A esperança é que parte do recurso da filantropia passe a ser utilizado de forma a repensarmos nossa inserção global num mundo que deve descarbonizar a economia. A abertura das Olimpíadas mostra o Brasil criativo, que dá certo. Como traduzirmos esse poder criativo em ações práticas que nos permitam vencermos fórmulas ultrapassadas, por exemplo, de produção energética mediante grandes hidrelétricas na Amazônia? De infraestrutura das nossas cidades, voltada para o carro individual, ao invés de um sistema multi-modal de mobilidade urbana? Ou da infraestrutura de transporte que sobrecarrega as estradas e privilegia os caminhões ao detrimento das ferrovias e outros modos de transporte de carga?


A atuação das ONGs brasileiras parece ter tido mais resultado quando estas exercem um papel mais combativo, mas também quando elas apontam soluções viáveis. Estamos em um momento muito difícil, em que o Congresso está capturado pelos setores mais retrógrados da nossa sociedade, e a democracia representativa parece não funcionar, pois sucumbiu aos lobbies e interesses que não são os da nação. As grandes decisões econômicas e políticas implicam sempre em ganhadores e perdedores. As decisões políticas são tanto mais acertadas quando, se no particular alguns perdem, a economia e a sociedade ganham como um todo.


Temos que recobrar nossa capacidade de planejamento e de execução, e fazermos face aos interesses particulares de alguns políticos ou atores econômicos. Na área específica do meio ambiente, talvez uma luz nesse túnel é a esperança de atuação do nosso atual ministro, Sarney Filho. É alguém que tem demonstrado entender de política e que sabe negociar com outros ministérios, com o Congresso, e com os estados federativos. Ele teve uma interlocução muito profícua com a sociedade civil durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, e já a conclamou para uma conversa inicial, no raiar dessa sua nova investidura.


Minha esperança, portanto, é que nesse quadro o iCS possa ajudar a arregimentar os recursos e as forças positivas de mudança, para apoiar iniciativas de impacto, longe de interesses político-partidários. Espero que a organização possa convencer a filantropia brasileira a desenvolver e a implementar cenários de desenvolvimento limpo, inclusivo e justo. Tenho a convicção de que o iCS tem um papel catalizador único, bem como a capacidade de liderança para fazê-lo, na pessoa da Diretora Executiva, Ana Toni.


iCS: Essa abertura do Ministério do Meio Ambiente demonstra que a sociedade civil pode influenciar políticas públicas? L.L.: Espero que sim, mas digo mais. Essas interlocuções pontuais têm seu valor, mas tanto o Ministério do Meio Ambiente quanto a sociedade civil devem sair da cozinha e trazer os atores para a sala. Há tão pouco dinheiro, que é imperativo serem o mais eficiente possível em sua atuação. Tragamos os principais atores econômicos, bem como os mais relevantes atores do governo, da sociedade civil e da filantropia para pensarmos juntos o futuro energético do país, que é a base do desenvolvimento. É um momento oportuno. O Brasil está perdendo espaço. Quando comprou a ideia das Olimpíadas era um momento completamente eufórico de desenvolvimento. Aquele modelo se exauriu e a perspectiva agora é muito negativa. Uma visão clara, criativa, inovadora, inclusiva, voltada ao interesse comum de todos os brasileiros e da saúde do planeta é imprescindível para vencermos a crise.

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