• iCS - Clima e Sociedade

Emprego e segurança alimentar: o que eles têm em comum?

A relação entre preservação da Amazônia e geração de emprego justo, com renda para as comunidades locais e desenvolvimento econômico para o Brasil, é mais próxima do que a maioria da população nacional deve supor. Um dos caminhos para isto passa pela segurança alimentar, e é sobre este tema que falamos em entrevista com Kamyla Borges Cunha, Coordenadora de Sistemas Alimentares no portfólio de Uso da Terra e Sistemas Alimentares no iCS.


1. Em primeiro lugar, Kamyla, você poderia por favor explicar a relação direta entre preservação e conservação da Amazônia para a segurança alimentar dos brasileiros, e não apenas os que vivem na região e dependem da floresta para sua subsistência?

A conservação da Amazônia relaciona-se em diferentes níveis com a questão da segurança alimentar. Um primeiro nível diz respeito à inter-relação entre o desmatamento acelerado da Amazônia com os distúrbios no regime de chuvas, em particular, no centro-oeste e sudeste, importantes regiões produtoras de alimentos. O risco que se tem é vivenciarmos mais períodos críticos de secas, com consequências como quebras de safra, redução da produtividade agrícola, etc., o que é sentido pelo consumidor final como menor oferta de alimentos e preços ainda mais altos.


O segundo nível diz respeito às conexões entre a produção de commodities, como soja e gado, em áreas desmatadas ilegalmente, e o fato de muitos brasileiros estarem consumindo produtos que têm origem ilegal, só que sem nem saber disso. Daí a importância de uma tomada de posição do consumidor de exigir transparência e informações sobre a procedência dos alimentos que consome.


Outro nível diz respeito a uma correlação, que queremos entender melhor, entre as dinâmicas territoriais envolvendo a forte expansão da produção de commodities sobre áreas onde antes havia produção de alimentos, empurrando esta produção para outras regiões (ou, modificando de tal forma o ambiente do entorno de modo a impossibilitar a continuidade de modos tradicionais de produção ou obtenção de alimentos). Cria-se, com isso, situações de menor oferta local de alimentos e, como consequência, empobrecimento das dietas alimentares das populações locais. Um exemplo bem impactante é o caso de algumas comunidades indígenas que, impossibilitadas de continuar a pesca, passaram a consumir sardinha enlatada.



2. No Amazônia 4.0, Carlos e Ismael Nobre falam muito sobre a importância das cadeias produtivas na região, como a do Açaí e das Castanhas. Em que ponto o fortalecimento destas cadeias pode contribuir para o desenvolvimento e geração de empregos no Brasil?


Pode fortalecer o desenvolvimento socioeconômico a partir da riqueza e diversidade da floresta em pé. Se desenvolvidas com o protagonismo e participação efetiva das populações amazônicas, as cadeias de valor dos produtos da sociobiodiversidade fomentam geração de empregos locais, e impulsionam a qualificação desses empregos e oportunidades.


3. Há uma percepção na sociedade de que os recursos amazônicos são infinitos. Como podemos, do ponto de vista alimentar, garantir a segurança para a população ao mesmo tempo em que ajudamos no desenvolvimento econômico da Amazônia e do país?


Quando falamos de alimentos, precisamos lembrar que existe toda uma cadeia que permeia o caminho entre a produção no campo e o prato do consumidor e que cada etapa dessa cadeia tem o quê melhorar. E, nesta cadeia, o consumidor tem um papel definidor. Ele pode ficar mais atento aos produtos que adquire, passando a exigir transparência e dados sobre a origem dos alimentos que consome. Pode priorizar produtos que sejam oriundos de um modo de produção sustentável. Pode parar o consumo de empresas associadas ao desmatamento.



4. De forma geral, a bioeconomia promete ser um caminho importantíssimo para o desenvolvimento de baixo carbono no Brasil, gerando empregos nas mais diversas áreas e setores, como têxtil, medicamentos, fragrâncias, alimentos, entre outros. Como você enxerga a bioeconomia na transição econômica?


Existem vários entendimentos, alguns contraditórios, sobre o que é a bioeconomia e seu alcance. A valorização dos produtos que respeitam a floresta em pé e a biodiversidade amazônica, que fomentam o protagonismo das populações amazônicas e seus conhecimentos tradicionais e que reconhecem o enorme potencial de desenvolvimento local precisam e devem ser reconhecidos como etapas para uma transição que efetivamente leve desenvolvimento social e econômico para a Amazônia. Até hoje, os modelos preponderantes de produção econômica pouco ou nada têm feito neste sentido, basta ver os baixíssimos indicadores sociais e econômicos apresentados na região.