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Mensageiros do clima e os ecos da #LaudatoSi3 nas mudanças climáticas

Atualizado: 25 de Jul de 2018

Confira a narrativa da coordenadora do portfólio de Política Climática e Engajamento do Instituto Clima e Sociedade sobre a conferência internacional de celebração à encíclica Laudato Si!


Por Alice Amorim


O trabalho com a mudança do clima tem me levado a lugares e situações que nunca imaginei que fosse viver. Cumprimentar o Papa Francisco e ouvir uma freira franciscana discorrer sobre o porquê sua comunidade de fé decidiu desinvestir dos combustíveis fósseis estão entre eles.



Há três anos, quando o Acordo de Paris ainda não era uma realidade, surgiu o Fé no Clima - uma iniciativa inter-religiosa climática, concebida em parceria com o ISER e que busca engajar lideranças de diferentes pertenças religiosas nas discussões e ações de combate à mudança do clima. Partíamos do pressuposto de que precisávamos ir além da ação política pautada no conhecimento técnico-científico sobre as causas, os efeitos e perigos da mudança do clima. Era preciso revisitar a dimensão ética e comportamental por trás do modelo de desenvolvimento predatório que causa o aquecimento global. E as lideranças religiosas, como exímias comunicadoras e formadores de opinião, têm um papel importante nisso. Aquelas premissas não poderiam ser mais pertinentes ao contexto no qual nos encontramos.


Participar da conferência internacional de celebração à encíclica Laudato Si, realizada entre os dias 5 e 6 de julho, mostrou que o compromisso do Papa, de fato, vai muito além de deixar um belíssimo documento escrito para a posteridade. Com o mote de “ver-julgar-agir”, o evento reuniu aproximadamente 300 pessoas - entre membros do baixo e alto clero da igreja católica, ativistas climáticos, jovens indígenas e representantes da Organização das Nações Unidas. O objetivo do encontro de dois dias era revisitar o que foi feito nesses três anos desde que a encíclica foi publicada, além de analisar os impactos dessas ações e pensar quais são as iniciativas que o Vaticano deve priorizar de agora em diante.


Foto: Rebecca Elliott

O cenário apresentado na conferência não é muito positivo, pois, como sabemos, o contexto geopolítico global não é nada favorável, o esforço para fechar o gap de emissões de GEE é significativo e a velocidade em que a transição para economias de baixo carbono acontece está muito aquém do necessário. Há muitas iniciativas sendo feitas mundo afora pela igreja católica, desde o plantio maciço de árvores, ações de eficiência energética em igrejas, campanhas de educação ambiental, dentre outros. Embora o conjunto dessas atuações ainda seja tímido perto do que precisa acontecer, no fim das contas saí do encontro um tanto quanto otimista.


Otimista porque o nível de apropriação do tema pelos representantes da igreja católica ali presentes estava bem acima do que eu esperava. Ideias como promover o desinvestimento de combustíveis fósseis pela igreja, tornar a instituição católica carbono neutra e a precificação de carbono não pareciam fora do radar da Dicarestia responsável pela promoção do desenvolvimento humano integral - uma espécie de ministério do meio ambiente do Vaticano. Otimista porque nesses três anos desde que o Acordo de Paris foi aprovado e a encíclica foi lançada, fica clara a preocupação em mudar o discurso do que “deveria ser feito” para “como devemos fazer” a fim de combatermos a mudança do clima. Se mover uma estrutura gigantesca como a igreja católica em direção a práticas de baixo carbono não é nada trivial, ao menos há uma preocupação em sair do discurso e ir pra prática [e quem sabe o Vaticano não acaba evoluindo para um mecanismo de MRV (Monitoring Reporting and Verification) para a Laudato Si? Seria excelente!].


Nesse sentido, acho que a expressão mais repetida de toda a conferência foi “Lead by example” ou simplesmente liderar pelo exemplo. A Igreja Católica e a comunidade climática sabem - pela urgência do tema e pelos mecanismos de transparência e accountability do Acordo de Paris - que não dá mais para fazer mil reuniões para discutir o que os outros devem fazer e não sermos nós mesmos agentes da mudança que queremos ver no mundo. A preocupação em manter a consistência entre prática e discurso estava lá e balizava o tempo todo o debate.


A experiência no Vaticano me fez ficar alerta para o fato de que precisamos trabalhar mais essa dimensão prática de como podemos mudar as atitudes, ou Walk the Talk, desde o nível micro até o mais macro. Os grandes conglomerados empresariais, os grandes Estados-nação têm certamente um papel crucial nesse quebra-cabeças. Mas a caminhada de volta para o convento após a conferência já ilustrava a dimensão do desafio a nível bem local.


Foto: Patrick Nicholson

As ruas de Roma com suas lojas de luxo e camelôs de roupa barata vinda de Bangladesh serão altamente impactados se formos sérios nessa transição para economias de baixo carbono. Os empregos de muitas daquelas pessoas estão em risco, mesmo que elas não estejam na primeira fila dos afetados pela transição como os trabalhadores na indústria do petróleo ou nas minas de carvão. Os impostos gerados por aquelas atividades serão afetados, o valor dos imóveis- que hoje abrigam um comércio que só existe em virtude do desejo infinito de consumo – vão ser afetados se mudarmos a lógica em que a sociedade opera. Tudo isso precisa mudar na “conversão ecológica” que o Papa Francisco reforça com frequência.


Saio convencida de que precisamos entender melhor a dimensão individual e coletiva do comportamento das pessoas, o que determina suas escolhas econômicas, o que motiva os indivíduos a se engajarem numa ou noutra causa. O que faz alguém escolher seguir uma ou outra tradição religiosa ou simplesmente não ter religião nenhuma. Ter um Papa tão comprometido e consciente do tamanho da crise climática é um ótimo começo, mas é preciso que seus seguidores reflitam sobre a mensagem que ele trás e, ojalá, escolham seguir o mesmo caminho.



Finalmente, o confronto e o compromisso a favor da nossa casa comum deve reservar um espaço de relevo a dois grupos de pessoas que estão na primeira linha no desafio ecológico integral e que estarão no centro dos dois próximos Sínodos da Igreja católica: os jovens e os povos indígenas, de maneira particular os da Amazônia (...) Caros irmãos e irmãs, os desafios são abundantes! Exprimo a minha sentida gratidão pelo vosso trabalho ao serviço do cuidado da criação, e de um porvir melhor para os nossos filhos e netos - trecho do discurso do Papa Francisco

Poucos meses atrás, em um evento sobre mudança do clima e segurança, um painelista disse uma frase que me marcou: “a mensagem é importante, mas o mensageiro é tanto quanto ou mais”. O Papa Francisco, independentemente da instituição que ele representa, é um excelente mensageiro do clima. Agora, precisamos fazer essa mensagem chegar nas reflexões cotidianas das pessoas e prover instrumentos para que elas possam se engajar e agir em sintonia com um mundo de baixo carbono. A Igreja católica já se comprometeu a fazer um Sínodo para a Amazônia em 2019. Vamos nos movimentar?



17 de julho 2018

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