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Dia do Trabalho: Fósseis x Renováveis

O mundo caminha para a geração de mais e mais empregos no setor de energias renováveis; combustíveis fósseis, no entanto, ainda são ameaça real


Não há dúvidas: o enfrentamento às mudanças climáticas passa, necessariamente, pela revolução na matriz energética global. A geração de empregos também. Roberto Kishinami, coordenador sênior do portfólio de Energia do iCS, explica que até 1 milhão de novas posições de trabalho podem ser geradas apenas pelo setor elétrico verde no Brasil.


"As fontes renováveis vão ser as principais geradoras de empregos no setor elétrico até o final da década. Só em centrais eólicas, a Empresa de Planejamento Energético do MME indica um crescimento de mais de 10 GW em capacidade instalada, num cenário denominado "Rodada Livre", em que o crescimento é decidido com base em menor preço e melhor performance ambiental. Esse aumento de capacidade significa mais de 110 mil empregos diretos e permanentes, para operação e manutenção dos equipamentos. Há ainda empregos indiretos na cadeia de suprimento de componentes e serviços a considerar. Se forem somadas as fontes solar fotovoltaica, biogás e biomassa, teremos seguramente mais de 1 milhão de novos empregos diretos só no setor elétrico, uma contribuição significativa para a economia e para a sociedade brasileiras", explica Kishinami.

No mundo, dados e estudos mostram que este caminho já está sendo percorrido – e, mais, indicam que o desenvolvimento econômico dialoga diretamente com o sol e com os ventos. Em 2000, a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), previu que o mundo deveria chegar a 2010 gerando 30 gigawatts de energia eólica. A previsão estava errada, de longe. Naquele ano, o planeta gerava 200 gigawatts de energia pelo vento, e em 2019, já havia superado em 22 vezes a previsão para 2010.


O sol também não fica atrás. Em 2002, previa-se que a energia solar produziria 1GW a mais por ano até 2010. Ao chegar lá, porém, o crescimento se mostrou 17 vezes maior. Em 2020, a previsão multiplicou de vez: cerca de 132 novos GW de capacidade foram instalados, apenas naquele ano.


Os custos de produção de energia solar e eólica também reduziram drasticamente entre 2010 e 2019 no mundo:


Solar Fotovoltaica

Gera energia elétrica diretamente dos raios solares

82%


Energia Solar Concentrada

Sistema que concentra a energia do sol a partir de dispositivos reflexivos para produzir calor e gerar energia

47%


Energia Eólica Onshore

Energia proveniente das turbinas eólicas no mar

39%


Energia Eólica OffShore

Energia proveniente das turbinas eólicas em terra

29%


Na última década, em muitos lugares do mundo, energias renováveis apresentam custos menores do que as de combustíveis fósseis. Como? As tecnologias de energia renovável seguem curvas de aprendizado: quanto mais capacidade instalada acumulada, mais o preço cai. Já com a eletricidade que vem dos combustíveis fósseis, isso não acontece.


Dados Expressivos

Em 2019, 54% da geração elétrica no Reino Unido veio de fontes de baixas emissões de gases de efeito estufa, sendo 37% renováveis. Pela primeira vez, a taxa de energia gerada por meio de combustíveis fósseis chegou a 43%.


Lá, e também nos Estados Unidos, o custo de eletricidade é de 10 a 15 centavos por quilowatt-hora (kWh) em uma concessionária. Em uma vila rural do Quênia ou Ruanda, na África, é preciso desembolsar 8 dólares por kWh na iluminação por querosene. Com o modelo de pay-as-you-go, os moradores pagam uma pequena taxa por um kit de energia solar e depois apenas o que forem consumir. Após 18 meses, na prática, a energia vira gratuita para os moradores.


O Chile é outro ótimo exemplo de sucesso. Em 2013, a capacidade instalada de geração solar no país era de 0,06% de sua matriz. Em 2018, o salto: 9,8%. As maiores concessionária de lá também se comprometeram, junto ao governo, a interromper as usinas a carvão até, no máximo, 2040.


De acordo com análise de estudos de diversas partes do mundo publicada pelo WRI, Confederação Sindical Internacional e New Climate Economy, para cada dólar investido, a energia limpa e outros investimentos verdes geram, normalmente, mais empregos a curto prazo do que os investimentos não sustentáveis. Quer alguns exemplos? Aplicar em energia solar fotovoltaica gera, em média, 50% mais empregos do que o mesmo investimento em combustíveis fósseis. Já a adaptação para eficiência energética gera 180% mais empregos por dólar do que petróleo e seus pares.


Hidrogênio Verde

Outra boa notícia é a ampliação mundial do Hidrogênio Verde, ou seja, o hidrogênio obtido a partir de fontes renováveis, sem emissões de gases de efeito estufa.


Para este método, usa-se corrente elétrica, que separar o hidrogênio (H2) do oxigênio (O2) que existe na água (H2O). Aqui, esta corrente vem de fontes renováveis, para que a energia não emita dióxido de carbono. Uma vez que o hidrogênio está isolado, ele é queimado na forma de combustível e reage ao ar, capturando o carbono e formando H2O, para liberar apenas vapor d’água.


O Brasil pode virar protagonista neste mercado, que poderá atingir até US$ 2,5 trilhões e gerar 30 milhões de empregos até 2050, por ter 80% de sua matriz energética oriunda de fontes renováveis – contando, claro, as hidrelétricas.


Estudos

Relatório da Agência Internacional para as Energias Renováveis (IRENA) em colaboração com a Organização Internacional do Trabalho (ILO) mostrou que, em 2020, os empregos associados à energia solar e eólica continuaram a liderar o crescimento do emprego a nível global no setor de renováveis, com um total de 4 milhões e 1,25 milhões de postos respectivamente. A China foi responsável por uma cota de 39% dos empregos no setor energético, seguida do Brasil, da Índia e dos Estados Unidos.


Já o estudo “Uma nova economia para uma nova era: elementos para a construção de uma economia mais eficiente e resiliente para o Brasil”, do WRI, mostra que o Brasil tem “posição privilegiada em termos de disponibilidade de recursos de energia renovável que se reflete em sua matriz energética e também em sua matriz elétrica: em 2018, 45,3% da produção de energia foram oriundos de fontes renováveis, valor bem acima da média global, que é de 13,7% (EPE, 2019). No caso de energia elétrica, 83,3% da produção foram oriundos de fontes renováveis, enquanto a média global foi de 24% (EPE, 2019). Apesar da posição privilegiada do Brasil em termos de disponibilidade de energia renovável, a indústria e o setor de transportes ainda dependem fortemente do uso de combustíveis fósseis”.


A redução desta dependência apresenta oportunidades de eficiência. “Para energia térmica, por exemplo, o aproveitamento de combustíveis oriundos de biomassa pode promover vantagens logísticas em relação ao uso de combustíveis fósseis, sobretudo em localidades afastadas de grandes centros de consumo e que carecem de infraestrutura. Portanto, ganha-se eficiência econômica e geram-se benefícios sociais”.


Outras opções são as centrais de microgeradores renováveis, reduzindo perdas nos sistemas de transmissão e distribuição e gerando empregos, desde a fabricação de equipamentos até a instalação e manutenção dos sistemas.


De forma global, observando uma nova economia para o Brasil como um todo (onde entram as fontes renováveis de energia), o estudo demonstra que em comparação com a trajetória normal de crescimento, uma rápida mudança para economia de baixo carbono e climaticamente resiliente no Brasil poderia proporcionar:


  • Mais de 2 milhões de empregos em 2030

  • PIB adicional de R$ 2,8 trilhões até 2030

  • Restauração de 12 milhões de hectares de pastagens degradadas

  • R$ 19 bilhões adicionais em produtividade agrícola adicional até 2030

  • Redução de 42% nas emissões de gases de efeito estufa em 2025 em relação aos níveis de 2005

  • R$ 742 milhões em receitas fiscais adicionais até 2030