• iCS - Clima e Sociedade

Cúpula do Clima promete muito; Brasil, pouco

Neste 22 de abril, Dia da Terra, teve início a Cúpula do Clima (ou Leaders Summit on Climate, em seu nome oficial), que reúne líderes de 40 países como uma espécie de aquecimento para a COP26, em Glasgow, na Escócia. Como simbologia principal, o retorno dos Estados Unidos à pauta climática e ambiental, após quatro anos de descompromisso e descaso do governo Trump. Na prática, promessas que levam em consideração, pela primeira vez de fato, a necessidade de um mundo com aumento médio da temperatura até 1,5ºC em comparação com o período pré-industrial.


Em seu discurso, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, colocou uma nova ambição na mesa: a redução em 50% das emissões de gases de efeito estufa até 2030, tendo 2005 como ano-base. Compatível com a ciência, a meta dobra a anterior, de 2015. Segundo ele, trata-se de uma medida que posicionará os EUA no caminho de zerar as emissões até 2050.


China e a União Europeia se uniram ao coro e desfilaram discursos e planos que podem levar à descarbonização econômica e à recuperação verde. Xi Jinping, presidente chinês, inclusive sinalizou sobre a redução do uso do carvão – um calcanhar de aquiles daqueles para a principal nação emissora do mundo.



O maior desapontamento ficou por conta da falta de compromissos mais ambiciosos de financiamento por parte dos países desenvolvidos para auxiliar as nações mais pobres a alcançar suas metas de mitigação e adaptação. A comunidade climática esperava muito mais.


Mas, e o Brasil?


O Brasil, mais uma vez, mostrou-se descolado da realidade e ficou para trás na fila de práticas, acordos e apoios multilaterais. Em uma fala de cerca de seis minutos, Jair Bolsonaro enalteceu ganhos ambientais de governos anteriores e apresentou propostas e números questionáveis.


Como lembra o Observatório do Clima, Bolsonaro informou o compromisso de zerar o desmatamento ilegal até 2030, meta retirada da nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira enviada pelo seu governo à UNFCCC em dezembro de 2020. Também reforçou o plano de reduzir as emissões nacionais em 37% até 2025 e 40% em 2030, quando, na verdade, a nova NDC apresentada oficialmente pelo governo federal mantém a redução de 43% do primeiro documento protocolado pelo Brasil em 2015, porém mudando a metodologia, o que na prática permite mais emissões e reduz a nossa ambição climática.


Ao afirmar que ordenou duplicar o orçamento para fiscalização ambiental, Bolsonaro omite que o orçamento do Ministério do Meio Ambiente para 2021 é o menor em 21 anos, e também que mais de 600 servidores assinam carta dizendo que a fiscalização do Ibama parou. Em sua fala, não faltou aquilo que faz de melhor:o presidente reforça o pedido de dinheiro internacional em troca dos “serviços ambientais prestados ao mundo pelos nossos biomas”. Não mencionou, porém, os mais de R$ 3 bilhões que o Fundo Amazônia tem em conta, parados.


Aliás, o Fundo Amazônia, criação nacional, serviu de inspiração para Estados Unidos, Reino Unido e Noruega se unirem a algumas das maiores empresas privadas do mundo e lançarem a LEAF Coalition, que busca mobilizar 1 bilhão de dólares para ajudar países a proteger suas florestas tropicais. A contrapartida é que estas nações demonstrem resultados na redução do desmatamento por conta própria, algo que o Brasil não pode fazer, já que as taxas só aumentam desde 2019. Ou seja, antes de contar com aportes internacionais, o governo tem um enorme dever de casa – super ironia para quem até não muito tempo era visto como exemplo


Ao enaltecer o Brasil e os supostos 84% da Amazônia que continuam preservados, o presidente poderia ouvir um dos principais climatologistas do Brasil, Carlos Nobre. Segundo ele, cerca de 20% da floresta amazônica já foi desmatada por corte raso, e existe ainda uma área estimada de 10% a 20% adicionais em diferentes graus de degradação. O desmatamento, lembra, foi a razão pela qual as emissões de gases de efeito estufa no Brasil aumentaram em 2020 no meio de uma pandemia, enquanto reduziram na maioria dos países.


“Jair Bolsonaro falou muito sobre termos a maior floresta do mundo e a energia mais limpa. A grande verdade é que a natureza tem sido muito generosa com o Brasil, e o posicionou como um climate leader no cenário global. Gostaríamos de ter visto não apenas uma reflexão sobre os benefícios que a natureza nos proporciona, mas também como usaremos este ativo e esta posição no enfrentamento às mudanças climáticas. Estamos jogando esta oportunidade fora”, diz Ana Toni, diretora-executiva do iCS.

O Política por Inteiro avaliou o discurso de Bolsonaro de ponta a ponta, e anunciou seu saldo: péssimo. O único ponto considerado bom foi a antecipação da meta de neutralização para 2050 – informalmente, era 2060. Confira a tabela comentada.


A verdade é que o planeta parece ter dado o primeiro passo para estabelecer as ações necessárias de enfrentamento às mudanças climáticas pós ratificação do Acordo de Paris. E, neste grupo, o retrato do Brasil não é dos melhores.