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A realidade do coronavírus superou todas as outras notícias

Por Ana Toni



Diante dessa crise global, é normal nos sentirmos desorientados(as). Tudo tem evoluído tão rápido que a realidade do agora pode não se aplicar às novas circunstâncias que aparecerão amanhã ou até mesmo hoje à noite. A estranheza de trabalhar de casa, de cancelar viagens e eventos, de passar muito mais tempo sozinho ou com os nossos familiares, de ter horas de vídeo conferência por dia tentando manter alguma normalidade profissional. Essas e muitas outras rotinas chegaram de maneira muito brusca na vida de todos nós. O silêncio inquietante da cidade, com lojas fechadas e ruas vazias nos lembram filmes de ficção científica que velozmente se tornaram parte de nossa realidade. Aqui no Brasil, as coisas já pareciam muito aceleradas há muito tempo. Desde a campanha eleitoral em 2018, muitos de nós ficamos ligados numa tomada de notícias e fakenews. A qualquer instante tudo podia mudar: um novo tweet do presidente; uma nova decisão do Judiciário; a movimentação do Congresso; uma manchete com uma matéria investigativa de uma jornalista; o anúncio dos dados do INPE ou do PIB; a mobilização das campanhas de protesto dos povos indígenas ou por Marielle Franco; a reação internacional ao que acontece no Brasil de hoje. Cada um desses fatos e notícias nos traziam esperança e/ou desalento.

Porém, a realidade do Coronavírus superou todas as outras notícias. Rapidamente, as manchetes sobre a velocidade com que este vírus se espalhava desnudou, de forma súbita, a irrelevância da polarização política que vivemos tão intensamente nos últimos anos. O Coronavírus desnudou de maneira gritante o fosso das desigualdades econômicas, sociais e raciais de nossa sociedade. Acima de tudo, desnudou a ignorância e a total falta de responsabilidade e preparo de alguns dos nossos políticos nos mais altos cargos.

É importante também reconhecer que esta terrível pandemia nos mostrou o quanto somos interdependentes uns dos outros e a importância da colaboração internacional. O quanto a harmonia do nosso ecossistema precisa ser preservada e a nossa a relação com a natureza repensada. O quanto o bem comum tem que ser respeitado, a solidariedade valorizada e as nossas atitudes pessoais podem fazer uma grande diferença.

Finalmente, o COVID-19 nos mostrou a importância de respeitarmos e valorizarmos a ciência e de termos uma gestão pública capacitada e efetiva para lidar com crises. E que a prevenção e a mudança comportamental são os melhores remédios para lidar com crises globais. Crises estas que, infelizmente, podem se tornar parte de um “novo normal”, se não mudarmos de forma efetiva e duradoura.

Tenho lido matérias sobre como o Coronavírus diminui a pegada de carbono no mundo e, lamentavelmente, alguns destes artigos estão comemorando este fato. Gostaria de deixar muito clara a posição do Instituto Clima e Sociedade: não temos nada a comemorar! A pandemia é, acima de tudo, uma tragédia humana. O que precisamos agora são medidas emergenciais para conter o vírus e ajudar as pessoas em crise.

Não resta dúvida de que a mudança climática é um risco global maciço e que pode - sim - levar a várias tragédias humanas. Porém, este é um risco previsível, estudado, de conhecimento público e, por isto, pode e deve ser evitado. Embora difícil de processar e lidar com tudo que está acontecendo, sabemos que a maioria da nossa rede de parceiros é privilegiada e há muitas, muitas pessoas em condições muito ruins e muito pior à nossa. Muitos estão enfrentando dificuldades reais: os profissionais de saúde da linha de frente, os milhares de moradores de comunidades sem infraestrutura, os trabalhadores informais e os desempregados, idosos, pessoas com doenças crônicas e muitos outros grupos vulneráveis.

Para além do que cada um individualmente pode e deve fazer para se proteger, proteger suas famílias e proteger os mais vulneráveis, é fundamental que organizações filantrópicas (como a nossa), independentemente de seu mandato estrito, procure ajudar de forma efetiva as instituições e grupos nas comunidades mais vulneráveis de maneira efetiva neste momento. A filantropia internacional já está se movimentando nessa direção e temos de assegurar que este movimento seja reforçado aqui no Brasil.

Finalmente, gostaria de tranquilizar nossos parceiros quanto aos prazos e possíveis revisões de seus projetos ou orçamentos. Se precisarem fazer qualquer modificação nos projetos já vigentes, por favor, entrem em contato com o Coordenador de Portfolio responsável pelo seu projeto para que, juntos, possamos lidar com as consequências da presente situação. Se estiverem conversando sobre uma nova parceria, fiquem certos que faremos o possível para processar novas doações o mais rápido possível. O mais importante neste momento é cada um de vocês e seus familiares fiquem bem e tranquilos(as). Um grande abraço, Ana Toni, diretora-executiva do iCS

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