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Clima e saúde: A maior oportunidade do século XXI

Atualizado: 24 de Set de 2018


Quinto encontro da série Diálogos Futuro Sustentável discute benefícios para a saúde de ações de combate às mudanças climáticas. Veja os bastidores!


Por Juliana Lopes


Apontado como a maior oportunidade do atual século[1], o debate em torno da relação entre mudanças climáticas e saúde permite mostrar como a vida de todos é impactada pelo fenômeno do aquecimento global. Essa foi a tônica do Encontro Internacional sobre Clima e Saúde, promovido pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) e a Embaixada da Alemanha em Brasília na última semana, dia 13 de setembro.


Em sua fala de abertura, o embaixador da Alemanha no Brasil, Georg Witschel, lembrou que, ao tratarmos de clima, também vale a máxima da área médica que diz “prevenção é o melhor remédio”. Segundo ele, quanto mais graves forem as mudanças climáticas, maiores serão as implicações e riscos para saúde. “Já a relação entre política climática e saúde é positiva. Quanto mais ambiciosos formos na condução de nossas políticas climáticas, maiores as chances de reduzirmos os riscos para a saúde. Cada real investido em políticas climáticas gera benefícios diretos para a saúde”, ressalta.


Foto: Gustavo Amora

Ana Toni, diretora executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS), pontuou que o objetivo do Diálogos Futuro Sustentável é construir pontes entre diferentes comunidades. De acordo com Ana, há muitos benefícios na aproximação das agendas de clima e saúde, afinal, são duas faces de uma mesma moeda e a relação é benéfica para os dois lados.


“Investimento em ônibus elétrico contribui para a redução da poluição do ar nas cidades, estímulo à mobilidade ativa ajuda a combater a obesidade, produção agroflorestal sem desmatamento proporciona alimentos mais saudáveis. Tudo isso é bom para clima e para saúde. Sonho pelo dia que ativistas climáticos e agentes de saúde possam mostrar essa relação e falar com facilidade sobre o tema”, reforça.

Foto: Gustavo Amora

Visão transdisciplinar na saúde


Foto: Gustavo Amora

No panorama apresentado sobre mudanças climáticas globais e seus impactos na saúde, Helen Gurgel, coordenadora do Laboratório de Geografia, Ambiente e Saúde e professora da UnB, reforçou a importância de uma abordagem mais transdisciplinar pelos profissionais de saúde, enfatizando seu papel protagonista. “Os profissionais de saúde precisam ser engajados, pois são líderes e já enfrentaram outros grandes desafios de saúde no Brasil como o combate a poliomielite, controle de casos de HIV e consumo de tabaco”, afirma.


Helen também pontuou os efeitos das mudanças climáticas na saúde mental, um problema crescente e muitas vezes negligenciado. Pesquisas científicas apontam, por exemplo, maior ocorrência de agressões, suicídios e conflitos sociais devido ao aumento da temperatura e maior ocorrência de ondas de calor[2].


No primeiro painel, Hans-Guido Mücke, cientista do Departamento de Higiene Ambiental da Agência Ambiental Alemã, apresentou estudos sobre ondas de calor na Alemanha - país que possui a segunda maior população idosa do mundo. Em suas pesquisas realizadas sobre uma onda de calor recorde de 12 dias (em 2003, na Alemanha), Mücke constatou um incremento de 77,8% nos casos de óbito.


Carol Devine, assessora para assuntos humanitários dos Médicos Sem Fronteiras, comentou que, em suas operações, a organização já identifica os efeitos das mudanças climáticas na saúde em 70 países onde atuam. “Esses efeitos incluem desde o impacto da escassez de água em zonas de conflito como Síria e Iraque até a falta de segurança alimentar em lugares como Sahel, na África, ou mesmo surtos de malária em vários países ao redor do mundo”, explica.


Foto: Gustavo Amora

Crianças, idosos e as populações mais pobres se mostram mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas na saúde. Tatiana Marrufo, coordenadora do Programa Estratégico de Saúde e Ambiente do Instituto Nacional de Saúde de Moçambique, mostrou como os casos de desnutrição e fome no País foram agravados pelas mudanças climáticas. “Em 2015, tínhamos 150 mil pessoas em situação de insegurança alimentar. Em 2016, esse número saltou para um milhão e meio de pessoas devido ao fenômeno climático El Niño que causou períodos de seca mais prolongados”.


Tatiana citou ainda outros efeitos associados à questão da intersecção entre mudanças climáticas e saúde, como transformações socioeconômicas e demográficas, urbanização e movimentos migratórios. Fábio Evangelista, representante da Organização Pan-Americana da Saúde no Brasil (OPAS/OMS), completou dizendo que fatores como falta de planejamento e alerta precoce, rápido crescimento populacional e o mau uso da terra funcionam como potencializados dos danos à saúde causados pelas alterações do clima. Dados da Organização Mundial de Saúde mostram que 23,5% dos desastres naturais acontecem nas Américas e estão associados aos fatores hidrológicos e meteorológicos – resultando em 98 milhões de vítimas e um custo de U$S 679 bilhões.


Se considerarmos esses altos custos do ponto de vista econômico e humano, para Fábio Evangelista, um futuro sem mitigação e adaptação às mudanças climáticas inviabilizará os modelos de saúde. “Para enfrentar os desafios das mudanças climáticas precisamos repensar a forma como vivemos, produzimos, consumimos e trabalhamos. E a área da saúde oferece os melhores argumentos e evidências para fortalecer as ações de desenvolvimento sustentável”, alerta o representante.


“Clima exige mudanças nos paradigmas de saúde”


Ao expor a experiência de Moçambique, uma das conclusões apontadas por Tatiana Marrufo foi a integração da mudança climática no planejamento de saúde, que também ecoou entre os especialistas durante o painel sobre perspectivas brasileiras.


Rodrigo Frutuoso, assessor técnico na Coordenação Geral de Vigilância em Saúde Ambiental do Ministério da Saúde, relatou os esforços para integrar clima nas rotinas dos vários órgãos, secretarias e departamentos que compõem a estrutura de governança de saúde no País.


O Plano Nacional de Adaptação às Mudanças Climáticas, por exemplo, conta com 24 metas, sendo duas delas na área da saúde. “Hoje contamos com planos de contingência para que tanto no nível federal e nas instâncias estaduais e municipais estejamos preparados para dar resposta às emergências”, explica Rodrigo.


Como parte desses esforços, então, foi criado o Observatório Nacional do Clima e Saúde - que monitora indicadores na área. Para Christovam Barcellos, da Fiocruz e pesquisador do Observatório, a saúde é uma mediadora entre o clima e a sociedade. Ele contou que a primeira grande tarefa do órgão foi levantar doenças sensíveis ao clima, organizadas em quatro grandes eixos: doenças transmitidas por vetores, crise hídrica (e doenças hídricas) e potencialização da poluição atmosférica combinada com mudanças climáticas. “A temperatura não é a única variável que devemos observar. As mudanças climáticas devem ser observadas junto com as mudanças ambientais. Por exemplo, as doenças se manifestam em decorrência de questões mais amplas como desmatamento, mudança no regime dos rios e eventos climáticos extremos”, afirma.


Empreendimentos no campo da saúde no Brasil já começaram a integrar os riscos climáticos na gestão. Como resultado, estão mapeando oportunidades de redução de custos e maior eficiência operacional a partir de medidas de redução das emissões de gases de efeito estufa nas suas operações.


Segundo Neilor Guilherme, membro do conselho do Projeto Hospitais Saudáveis e engenheiro ambiental do Hospital Albert Einsten, por meio da iniciativa “Desafio 2020: Saúde pelo clima”, os 47 hospitais participantes alcançaram £ 1 bilhão de economia financeira por meio da gestão de gases de efeito estufa. Por meio do Projeto Hospitais Saudáveis, 100 estabelecimentos de saúde assumiram metas de redução de emissões até 2020.


Em 2015, durante a COP 21, a saúde foi citada como prioridade para ações de mitigação devido aos benefícios imediatos para saúde e economia. A poluição tem uma conexão direta com o clima e seu impacto na saúde é muito rápido, diferente de outros efeitos que se sentem mais a médio e longo prazo.


Evangelina Vormittag, fundadora e diretora do Instituto Saúde e Sustentabilidade, alertou que a poluição já é maior causa ambiental de doenças e mortes no mundo – três vezes mais do que HIV/AIDS, tuberculose e malária combinados.

“Devido às altas emissões veiculares e elevados níveis de concentração de material particulado, um dos poluentes mais nocivos à saúde, a poluição do ar passou a ser líder ambiental de causas de óbitos, superando as mortes por malária, poluição indoor, consumo de água insalubre”, aponta.

Evangelina esclarece ainda que os danos à saúde dos elevados níveis de concentração de material particulado não são apenas respiratórios, mas principalmente cardiovasculares, pois boa parte do material particulado entra na circulação sanguínea. No Estado de São Paulo, a poluição atmosférica mata mais do que câncer de mama e gera custos para o sistema de saúde pública de R$ 1,5 bilhão.


Ela reforça a importância de considerar esses estudos no planejamento urbano e decisões de infraestrutura nas cidades, principalmente pela convergência das agendas de clima, saúde, transporte e energia renovável.


Foto: Gustavo Amora

Sobre essa temática, Alice Amorim, coordenadora do portfólio de política do iCS, chamou atenção para o fato de que a infraestrutura nos países em desenvolvimento ainda está por construir-se em muitos casos. “Estamos em tempo de incluir aspectos de clima e saúde no planejamento e decisão de investimento de infraestrutura, mas é preciso fazê-lo com urgência”, ressalta.


REFERÊNCIAS DO TEXTO:


[1] The Lancet, grupo de pesquisadores multidisciplinar chamado The Lancet, que monitora anualmente indicadores de clima e saúde.

[2] https://www.google.com/url?q=http://www.impactlab.org/news-insights/why-rising-temperatures-are-bad-for-our-mental-health/&source=gmail&ust=1536016272190000&usg=AFQjCNFwfGMBRwXWxRvGnZfkwrYQlXeevA

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