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Mudança climática: sujeito feminino?

Por Andréia Coutinho Louback


No último mês, uma arte com uma indagação instigante circulou com dezenas de compartilhamentos pelas redes sociais do Instituto Clima e Sociedade (iCS), Observatório do Clima (OC) Instituto de Manejo e Certificação Florestal (Imaflora), entre outras organizações. Mudança climática: sujeito feminino? O questionamento foi o ponto de partida para o primeiro debate público virtual – organizado pelo OC e pelo Imaflora –, que analisou criticamente discussões sobre impacto de gênero nas variações climáticas no Brasil e ao redor do mundo.



Por que gênero e clima?


A pauta climática é permeada por interseccionalidades que trazem à tona a complexidade do debate. Sendo assim, se almejamos ver transformações de longo prazo na agenda do clima, é preciso que a consciência de gênero e raça se torne um elo estruturante no poder decisório, representatividade e participação.


Diante da infinidade de possibilidades para explorar o assunto, o primeiro debate público do grupo de trabalho do Observatório do Clima trouxe a problemática à tona ao realizar o primeiro webinar no dia 6 de maio. O encontro online reuniu aproximadamente 250 participantes e contou com a participação de Alice Amorim, advogada formada pela UERJ, mestre em Political Economy of Late Development pela London School of Economics and Political Sciences (LSE) e coordenadora do portfólio de política climática e engajamento do Instituto Clima e Sociedade (iCS); Gabriela Couto, graduada e licenciada em Ciências Biológicas e mestre em Ciência Ambiental pela USP, é doutoranda e pesquisadora do INPE-CCST; e Sarah Marques, liderança comunitária, bolsista do Fundo Baobá, integrante o coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste e o Centro Popular de Direitos Humanos (CPDH). A conversa foi mediada por Karina Penha, bióloga maranhense e ativista climática da ONG Engajamundo, que integrou delegações oficiais na 22ª, 24ª e 25ª Conferências de Clima da ONU.

Temas abordados


A programação do webinar buscou entender diferentes realidades que já vivenciam hoje os efeitos das mudanças climáticas em periferias urbanas, ambientes rurais, além de tudo o que tem sido objeto de estudo nas instituições de pesquisa. O objetivo de cada apresentação era priorizar exemplos da prática para a teoria, do global para o local, a fim de inspirar e despertar novas inquietações na plateia.


A primeira apresentação trouxe um panorama do Gender Action Plan, tendo como ponto de partida as perspectivas da agenda de gênero no nível global. Alice iniciou sua fala compartilhando uma foto do último dia da COP 21, logo depois da celebração da assinatura do Acordo de Paris.


Foto: ONU

A imagem deixa claro o abismo entre a representação de homens e mulheres. “A desproporção é muito grande. Isso é um elemento importante para pensarmos em duas coisas: 1) se esse campo de clima está querendo falar sobre gênero, que tipo de experiência e reflexão ele traz para essa agenda? 2) quem é objeto dessa agenda?”, questiona ela.


Segundo Alice, o Gender Action Plan trata de múltiplos aspectos, entre eles o de representação. O relatório realizado pela convenção do clima abordou os diferentes impactos da agenda do clima nas mulheres e nos homens, e como as dimensões de gênero eram consideradas em diferentes políticas - além do quesito de representatividade. Em sua apresentaçãp, ela citou e destacou o seguinte parágrafo do documento:


“Embora todas as partes tenham reconhecido a importância do equilíbrio de gênero em suas respectivas delegações do clima e tenham monitorado em alguma esfera, nenhuma parte nem organizações observadoras proveram informações sobre políticas ou processos que estão sendo implementados para resolver esse problema”, cita e problematiza ao afirmar que - mesmo tratando-se de uma agenda global e relativamente nova - estamos em um momento de pensar e reconhecer a importância do tema, porém, ainda muito pela frente para tornar a discussão (e a ação) mais concreta.

Em seguida, a pesquisadora Gabriela trouxe uma contextualização de como os desastres ambientais se encaixam da discussão sobre gênero. Alicerçada em dados e evidências, estruturou sua apresentação nos seguintes eixos: I) como a ciência entende o conceito de desastres? II) gênero como uma importante categoria analítica para olhar para as vulnerabilidades diferenciais de desastres III) sua pesquisa de doutorado, que analisa dos desastres brasileiros a partir da lente de gênero no Brasil, mostrando que os impactos são sentidos de formas desiguais. Na verdade, eles vão além dos eventos e forças da natureza, sendo considerados pré-condições da sociedade.


A pesquisa, ainda em processo, identifica e reconhece as características de gênero, idade, ano de maturidade, local e motivo de morte das vítimas de desastres. Gabriela lembrou que, historicamente, os estudos sobre desastres eram construídos a partir da perspectiva masculina. “Os homens carregavam a categoria de heróis, salvadores e tomadores de decisão que defendem as mulheres. Assim, eles acabavam sendo o objeto central das pesquisas e as perguntas dos levantamentos acabam focando no papel do masculino no que tange a desastres. Porém, alguns eventos - que aconteceram no espaço e no tempo - trouxeram dados que fizeram com que a ciência repensasse esse foco. Por exemplo, em 1991, Bangladesh registrou 91% na taxa de mortalidade de mulheres no ciclone que passou no país. Após o tsunami do oceano índico, em 2004, 70% da mortalidade de mulheres foi registrada. Então, não tinha mais como a ciência ignorar a importância de olhar para o grupo de mulheres quando se tratava da mortalidade por desastres”, argumentou.


Por fim, a terceira palestrante, Sarah, fechou o ciclo de apresentações a partir da sua experiência territorial e de luta no coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste. O coletivo foi fundado há dois anos, quando em um conflito, a Prefeitura de Recife tentou retirar 76 casas de uma comunidade centenária para fazer rodovias e dar acesso às construções prediais na margem do rio. O argumento utilizado foi o de limpeza do canal mais importante da cidade, que divide a comunidade - de um lado é Caranguejo e Tabaiares.


Foto: Diário de Pernambuco

“Foi assim que nasceu o coletivo, um lugar onde trabalhamos com formação e educação popular. Fazemos cine debates, reuniões e muitas conversas com a população de Caranguejo para mostrar e fazer com que as pessoas entendam que as nossas raízes estão aqui, que fomos nós que aterramos esse chão e esse chão é nosso”, explicou Sarah. A ativista pontuou que Recife não é urbanizado, sobretudo se considerarmos a perspectiva da população negra. A água que passa no canal não é tratada, é esgoto. Além disso, nessa visão de comunidade, é preciso considerar o recorte de mulheres negras. Nenhuma ciência, nenhum estudo, nenhuma literatura estará completa se não fizer o recorte da mulher negra nessas comunidades e nessa cidade. Nós vivemos como quilombos, como comunidade tipo rural, muita gente vive de pesca. Não tem esgotamento sanitário, não tem água para todo mundo, então qual é a urbanização que a gente está discutindo nessa cidade? A gente não entende qual é essa urbanização e onde estamos discutindo isso”, questiona Sarah em crítica às notícias que ilustram Recife como uma capital totalmente urbanizada - o que não é realidade.


Essas e outras provocações foram debatidas no webinar, trazendo mais inquietações do que respostas. Isso nos mostra que as mudanças climáticas e as desigualdades sociais – em especial, de gênero -, nada mais são do que construções humanas interconectadas. A responsabilidade dos homens e das mulheres é combatê-las. Ainda temos um longo percurso de reflexão e de mudanças necessárias para que a equidade de gênero na comunidade climática seja uma realidade.


Não deixe de assistir o webinar completo e compartilhar com sua rede. Ao fim do evento, participamos de uma dinâmica virtual sobre as três palavras-chave que mais marcaram os participantes durante as falas. Confira o resultado que reitera a necessidade de trazermos a temática cada vez mais para o centro do debate:




Até a data do último webinar, o GT de Gênero e Clima contava com a participação das seguintes organizações: Apremavi, Engajamundo, GTA, iCS, IEI Brasil, Imaflora, Imazon, Instituto Alziras, Instituto Pólis, ISA, WRI, WWF e YCL. Se você deseja saber mais sobre receber mais informações sobre a iniciativa e sua estratégia, por favor, escreva para nara.ext@imaflora.org



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