• iCS - Clima e Sociedade

Como a crise climática afeta o mundo do trabalho

Transição justa a economia limpa com geração de novos e melhores empregos foi debatida no Evento Internacional da série Diálogos Futuro Sustentável, na Semana do Clima, em Salvador


Por Juliana Lopes e Maira Teixeira


A implementação de ações para enfrentar a crise climática e alavancar uma nova economia limpa trará novas oportunidades de negócios e atuação profissional. Segundo relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), 24 milhões de novos empregos podem ser criados globalmente até 2030, se forem implementadas tais medidas. Esse tema esteve no centro do debate do Evento Internacional Sobre Clima e Emprego, o oitavo da série Diálogos Futuro Sustentável, durante a Latin America and Caribbean Climate Week (LACCW), realizada entre 19 e 23 de agosto.


Lideranças de entidades representativas de trabalhadores, institutos de pesquisa, especialistas e gestores públicos apresentaram suas análises sobre como a crise climática vem transformando mercados de trabalho.


Lutz Morgenstern, primeiro-secretário para Assuntos Ambientais da Alemanha no Brasil, destacou o grande potencial do combate às mudanças climáticas como motor de crescimento e geração de empregos.


“Na Alemanha as políticas climáticas já são um importante fator econômico: 1 em cada 30 empregados deve seu trabalho a elas. Cerca de 1 milhão de pessoas trabalha na área de prestação de serviços de proteção ambiental, saneamento e eficiência energética de edifícios. Quase 300 mil empregados atuam no setor das energias renováveis e outras 85 mil pessoas trabalham na produção de bens utilizados no combate a mudança do clima”, exemplificou.

Para Ana Toni, diretora executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS), a alta taxa de desemprego no Brasil pode estar ocorrendo justamente porque ainda não apostamos na economia do futuro. Segundo ela, a mudança climática é muito mais um vetor de oportunidade do que risco para o País, isso se forem implementadas políticas para uma transição justa.


“Precisamos alavancar uma reindustrialização, tendo a bioeconomia como base. Para isso, é preciso treinar a mão de obra viabilizando que as pessoas tenham as competências para aproveitar essas oportunidades que estão surgindo e assegurar que esses empregos não sejam precários”, ressaltou Ana.

Transição justa


As discussões sobre clima e o mundo do trabalho ganharam maior destaque a partir da inserção do conceito de transição justa no Acordo de Paris em 2015, por meio do qual 195 países assumiram compromissos de redução de emissões para enfrentar a crise climática.

De acordo com Montserrat Mir, secretária da Confederação Sindical Europeia (CSE) e assessora especial do Centro de Transição Justa da Confederação Sindical Internacional (CSI), esse foi um grande marco, trazendo de forma mais significativa a dimensão social para as discussões climáticas. O CSE reúne 200 milhões de trabalhadores de todo o mundo e tem procurado construir alianças com empresas para treinar as pessoas e se antecipar às necessidades que esses novos mercados vão apresentar.

“Foi um primeiro passo importante para preparar nossos trabalhadores a desempenharem seu papel, uma vez que nem todos entendiam a mudança climática como prioridade. Com isso, tivemos progressos como sindicatos sugerindo a governos a criação de grupos para a preparação para uma transição justa. Em países como Nova Zelândia, Canadá e Alemanha alianças desse tipo foram criadas”, explicou Mir ao apontar exemplos de como alguns países preparam atuais e futuras gerações às novas oportunidades.


A cidade de Bottrop, na Alemanha, que tinha a sua economia fortemente dependente da indústria de carvão conseguiu fazer uma transição para renováveis preservando empregos. O governo local firmou parcerias com as empresas e juntos eles conseguiram investir 200 milhões de euros para alavancar os setores de energias renováveis, eletrificação, mobilidade e construções verdes, sendo a maior parte deste investimento proveniente da iniciativa privada. Assim, Bottrop alcançou a menor taxa de desemprego da região, gerando em média 1200 novos empregos por ano desde 2015.


“Soubemos com 20 anos de antecedência que a última mina de carvão deveria fechar em 2018. Conseguimos nos preparar para essa transição. Definimos uma meta de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 50% até 2020. Até o momento atingimos uma redução de 38%. Investimos em mais de 300 projetos, incluindo a criação de uma nova universidade focada em energias renováveis, oferecemos incentivos para reformas de edifícios visando maior eficiência”, explica Tilman Christian, chefe da Divisão de Planejamento Ambiental da cidade de Bottrop, na Alemanha.

Outro projeto importante foi a transformação da planta de tratamento de esgoto em uma usina de energia elétrica que produz mais de 60 mil quilowatts/ hora.


Desafios no Brasil

Planejamento é a chave para uma transição justa para a economia verde. Os últimos governos federais brasileiros foram indutores de políticas públicas neste sentido, mas o atual abriu mão dessa vocação e o espaço de protagonismo vem sendo ocupado por governos subnacionais. Eles têm se mobilizado em consórcios e parcerias entre si e com a iniciativa privada no enfrentamento à crise climática.


A prefeita de Brasileia, localizada no Acre, Fernanda Hassem, trouxe ao diálogo um exemplo prático de planejamento com base na preservação do ambiente, desenvolvimento econômico e geração de renda à população. A cidade tem em seu território uma reserva extrativista de 470 quilômetros, cujo manejo vem sendo realizado há décadas, mas nos últimos anos conta com o Programa Floresta em Pé, que oferece subsídio à atividade dos 3 mil extrativistas que moram dentro da reserva. “Só neste ano, por meio de nossa parceria entre Brasileira e o governo do Acre distribuímos 4 mil mudas de borracha, açaí, castanha”, ressaltou a prefeita.


Além disso, a geração de riqueza local ocorre por meio da compra de toda a produção de 130 agricultores familiares pela prefeitura e são destinados a hospitais, escolas, creches, além dessas famílias abastecerem todo o mercado da cidade.


Daniel Gaio, secretário de meio ambiente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), fez uma análise conjuntural para falar sobre as diferenças do contexto europeu e brasileiro para tratar da transição justa de trabalhadores para uma economia limpa. O fato de a desigualdade brasileira ser imensamente maior que em países desenvolvidos nos coloca em outro local de diálogo social no cenário mundial. “Teremos de ter a solidariedade da União Europeia cuja transição só foi possível por causa das relações com os países do sul. As empresas europeias - eólicas na Espanha, e mineradoras ou indústrias de agrotóxicos da Alemanha - quando passam a operar de forma mais lucrativa apoiam a desregulamentação do trabalho no Brasil para ter seus lucros aqui.”


Gaio aponta o setor de energias renováveis como uma grande vocação brasileira. “Precisamos disputar com o capital estrangeiro, aproveitar nosso potencial nessa área. A forma é construir política pública para o que almejamos hoje como transição justa do ponto de vista da nossa realidade.”


Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), destaca que não há solução para o problema do clima sem a diminuição das desigualdades, alta do investimento estrutural, inclusive do setor privado. A solução, aponta Lúcio, seria estruturar políticas distributivas capazes de induzir essa transformação pelo mundo do trabalho.



“É uma tarefa quase impossível dentro do que prega o governo atual. Temos que nos mobilizar como trabalhadores para resistir e propor outras trajetórias, seja no micro, em uma prefeitura por exemplo. Significa que temos de preparar os cidadãos para fazer essa discussão e talvez amanhã eles virem prefeitos e prefeitas porque foram capazes de discutir uma situação complexa. Precisam ser ousados para construir uma comunidade. É urgente voltar a tratar essa questão como essencial”, destacou.

iCS - Instituto Clima e Sociedade 2020 | Todos os direitos reservados

  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube
  • LinkedIn ícone social