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Cidades e corpos: raça, gênero, mobilidade e mudanças climáticas


O Movimento Nossa BH, em parceria com o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), o Fórum das Juventudes da Grande BH, a Associação dos Ciclistas Urbanos de Belo Horizonte - BH em Ciclo e a Coalizão do Clima e Mobilidade Ativa realizou, nos dias 12 e 13 de abril, o evento “Cidades e corpos: mobilidade sensível gênero, raça e clima”.


Seja pela moradia distante, pela falta de acesso aos espaços ou pelo medo de estar e se locomover pelas ruas, alguns corpos são mais impactados pela desigualdade do que outros. Com objetivo de colocar em conexão os temas de mobilidade urbana, mudanças climáticas, gênero e raça, o evento “Cidades e corpos” promoveu, ao longo de dois dias, diálogos, debates, oficinas e poesia sobre como as cidades são vividas e percebidas de formas distintas pelas pessoas, em especial os corpos que são tradicionalmente marginalizados nos territórios urbanos.


Motivado pela constatação cotidiana e por pesquisas sobre como os problemas de mobilidade urbana nas grandes cidades brasileira afetam de maneira ainda mais negativa a população feminina e negra, o evento fez conexões entre diversas causas e consequências desse processo de marginalização.

Na sexta-feira, 12 de abril, para marcar a abertura do evento, foi realizada a Auditoria de segurança pública e mobilidade para mulheres”, atividade exclusiva para mulheres, que tinha por objetivo colocar em discussão as experiências de mulheres na cidade a partir de vivência de cada uma das participantes após uma pequena caminhada pelo bairro, sob coordenação da ONU-Habitat.


Fotos: Denise Santos


A observação do espaço público, na auditoria, serviu para traçar uma ‘Cartografia da Insegurança’ das mulheres, a partir de pontos de sensibilidade no bairro. A atividade contou mulheres moradoras do bairro, de outras regiões de Belo Horizonte e também com as convidadas de outros estados do Brasil. A auditoria serviu de base para um relatório de ações prioritárias para melhoria dos problemas encontrados pelas participantes que será entregue pelo Nossa BH à prefeitura.


Na tarde do dia 12 de abril, o evento iniciou o debate sobre as consequências das mudanças climáticas nas áreas urbanas, com a realização da Oficina sobre mudanças climáticas e mobilidade ativa, sob a coordenação do Nossa BH e da Coalizão do Clima e Mobilidade Ativa. O objetivo foi colocar em pauta o cenário internacional sobre o tema e aproximar essa discussão às ações em âmbito municipal.


Foto: Denise Santos

A oficina foi aberta por Marcelo Amaral, do Nossa BH, que apresentou um histórico do Nossa BH, os principais projetos (Observatório da Social da Mobilidade Urbana e MobCidades) e também algumas ações que o Movimento tem realizado em ambos.


Em seguida, Aline Cavalcanti, da CCMob, trouxe um contexto geral da discussão climática que se conecta com a mobilidade urbana e também às questões de gênero, dando um panorama histórico de como o governo brasileiro tem se posicionado nas discussões internacionais sobre clima nos últimos anos e como isso mudou com o atual Presidente.

A Oficina seguiu com a dinâmica de “papo de bar”, ou World Café, com cinco grupos e cada qual com um subtema, sendo eles:


1. João Lacerda, da Coalizão: mobilidade urbana e mudanças climáticas;

2. Luana Costa, do Nossa BH: mobilidade sensível a raça e gênero;

3. André Veloso, do Nossa BH: mobilidade urbana e mudança climática em BH;

4. Letícia Birchal, do Nossa BH: gênero e mudanças climáticas;

5. Amanda Corradi, da BH em Ciclo: mobilidade ativa em BH.


Ao todo, foram três rodadas de trabalho em grupo, no modelo World Café. A cada rodada, os coordenadores do subgrupo fizeram uma mini-palestra de até cinco minutos) sobre o tema, conduzindo a um debate focado na pergunta da rodada (elencadas abaixo). Na primeira rodada, foi perguntado em cada grupo “Com quem dialogar?” sobre o subtema. Na segunda, “Como dialogar?” sobre esse subtema. Por fim, cada grupo discutiu “Como comunicar e envolver?” sobre o tema do grupo.


Ao final das três rodadas, foram feitas cinco apresentações, uma por grupo, com um resumo dos debates ocorridos no seu grupo nas três rodadas em relação ao subtema, destacando as contribuições e questões que ficaram para ser aprofundadas.


Impulsionado pelas discussões da sexta à tarde, o sábado pela manhã foi potente, tendo surpreendido os e as presentes. Cidades e corpos trouxe uma mesa com diálogos possíveis entre mobilidade, gênero, raça e mudanças climáticas, com as presenças de Daphne Besen (ONU-Habitat), Aline Cavalcanti (Coalizão do Clima e Mobilidade Ativa), Bianca Macêdo (Secretaria Municipal da Conservação Serviços Públicos – Prefeitura de Fortaleza), Rafaela Albergaria (Pesquisadora CESeC) e Andreia de Jesus (Deputada Estadual pelo PSOL-MG), mediada por Letícia Birchal (Nossa BH) e estimulada por Luana Costa (Nossa BH).


Foto: Denise Santos

Rafaela Albergaria trouxe para o debate a importância de se compreender como a expressão simbólica das inúmeras violências com as mulheres, em especial as negras, têm expressões materiais na vida cotidiana de cada uma delas. Rafaela alertou sobre como essas construções violentas determinam as experiências das mulheres nos espaços, sendo o machismo e o racismo violências materiais que apontam e moldam os privilégios e desvantagens. Ela ainda apontou sobre como a possibilidade de acessar equipamentos públicos define as possibilidades de viver e sobreviver, sendo a mobilidade urbana determinada, racializada e territorializada e não um elemento neutro na política urbana.


Bianca Macedo, da Prefeitura de Fortaleza, apresentou o Programa de Combate ao Assédio Sexual no Transporte Coletivo, pautado pela máxima de que a violência contra mulher é uma tragédia mundial e também em Fortaleza. Apresentou o novo panorama legal sobre assédio, instituído pela Lei 13.718 de 2018, que determina que a importunação sexual é crime e é entendida como o ato de “praticar contra alguém e sem sua anuência ato libidinoso com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou de outrem’’. Para Bianca, a Lei trouxe um marco histórico e importante que é a punição do assédio cometido também em espaços públicos, por qualquer pessoa, e ainda a possibilidade da denúncia ser feita por terceiros(as). Fortaleza foi a primeira capital do Brasil a criar um programa de enfrentamento ao assédio no transporte público e contou com um botão, o Nina, no aplicativo de transporte coletivo da Prefeitura para facilitar as denúncias.


Foto: Denise Santos

Aline Cavalcanti, da Coalizão do Clima e Mobilidade Ativa, trouxe dados da pesquisa Instituto Alziras sobre a participação de mulheres em Prefeituras do Brasil. Segundo ela, o estudo contribuiu para se pensar em mecanismos que promovam impactos significativos nas eleições de mulheres às Prefeituras, levando-se em conta as diferentes realidades identificadas Brasil afora, de acordo com o contexto sociodemográfico, étnico racial, de formação, partidário, entre outros. Aline também apontou a dificuldade de se discutir clima e mobilidade com homens, em especial os brancos e héteros, uma vez que via de regra esses parte de posições sexistas e machistas e para dialogarem. Outro ponto importante trazido por Aline foi de que a capacidade de se adaptar às mudanças climáticas é diferente, conforme os contextos socioeconômicos dos territórios, e que, via de regra, as maiores vítimas das consequências das mudanças do clima são as mulheres pobres e, paradoxalmente, elas são as que menos emitem gases de efeito estufa em suas atividades pessoas e profissionais e que isso nos leva à discussão sobre justiça climática.

Fotos: Denise Santos

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