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Sem eficiência, Brasil desperdiça energia e trava retomada da economia

Parece que voltamos a 2001/2002, mas dessa vez, na verdade, o cenário é pior. A nova ameaça de apagão é grave, real e não pode ser colocada na conta só da falta de chuvas. O problema passa diretamente pelo governo federal, que negligencia a eficiência energética em favor do lobby de produtores de energia, como as térmicas. Esse é o caminho oposto do que fazem países desenvolvidos, tornando a eficiência fonte segura para tornar suas economias ainda mais competitivas.


Quem traz o diagnóstico são especialistas reunidos pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) no documento “A hora e a vez da eficiência energética”, coordenado pelo iCS e assinado pelo Fórum de Energias Renováveis, Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Mitsidi Projetos e Projeto Hospitais Saudáveis. Eles também defendem a retomada do horário de verão para poupar a energia que fará falta nesta e nas próximas crises hídricas.


Na última segunda-feira, dia 13, os autores do estudo se reuniram com jornalistas com um recado claro: o Brasil estacionou no tempo em termos de eficiência energética, o que contribui para baixar os níveis dos reservatórios, força o acionamento de térmicas a combustíveis fósseis – que agravam os problemas climáticos – e eleva gastos das empresas, emperrando a retomada do crescimento.


“A maioria dos países passou a produzir mais riqueza consumindo menos energia, mas a omissão do nosso governo trava o desenvolvimento”, diz Kamyla Borges, coordenadora da Iniciativa de Eficiência Energética do iCS. O estudo compara, por exemplo, os gastos com energia de vários países para produzir a mesma quantidade de riqueza, um índice conhecido como “intensidade energética”. As diferenças são enormes: entre 2010 e 2015, que inclui o último ciclo de crescimento do Brasil, o gasto com energia aumentou 6,2% para produzir riqueza. Na China, despencou 22%. Nos Estados Unidos, 10,9%, enquanto na Índia 11,6% e no México 6,9%.


Os especialistas também citaram estudo do Instituto Escolhas que mostra que a negligência afeta o bolso dos brasileiros: a conta de luz estaria até R$ 30,00 mais barata por mês se o governo tivesse aplicado apenas uma das medidas de eficiência em espera há 15 anos, justamente a elevação do padrão de eficiência das geladeiras correspondente à etiqueta A e os incentivos fiscais equivalentes. Mas, em vez disso, a conta de luz subiu 20% em 12 meses.


O efeito do lobby para o Brasil não priorizar a eficiência energética no planejamento do setor elétrico é um ponto levantado pelo físico José Goldemberg, ex-ministro de Educação e ex-dirigente de quatro grandes estatais do setor elétrico. “Olhar a eletricidade pelo suprimento nos liga ao grande problema de compra de equipamentos e até corrupção. O negócio é fazer usinas, investir bilhões de dólares e beneficiar setores da sociedade. Olhar pelo lado da redução da demanda não pegou no sistema de planejamento brasileiro”, lamentou. Ele ainda criticou a sugestão do presidente Jair Bolsonaro para que o brasileiro “desligue um ponto de luz”.


“Para o rico, desligar uma lâmpada não faz diferença, mas para o pobre significa ficar no escuro. Há uma ideia de que a eficiência energética é privação, mas isso não é verdade. O cidadão tem o mesmo serviço, só que custa menos.” Na Califórnia, exemplificou, as geladeiras passaram a gastar quatro vezes menos energia em 30 anos. “A Califórnia proibiu a circulação de produtos sem etiquetagem com medidas simples.”

Kamyla Borges ainda completou: ““Ou o governo agrava o atraso ou tenta revertê-lo já, com prioridade. Tem que ser feito agora, ou daqui a 5 anos voltamos ao apagão e não vamos sair do lugar. Isso tem que ser visto como uma questão de política industrial, pois cria empregos e competitividade. Sem eficiência energética, vamos continuar travando o desenvolvimento”. Com o horário de verão, diz, “Teríamos economia de 2% a 3% nos horários de pico”.


O encontro com jornalistas repercutiu na imprensa. A Folha de S. Paulo sublinhou o apoio de entidades do setor elétrico para o retorno do horário de verão. O Valor, por sua vez, destacou que as bandeiras tarifárias acumularão déficit de pelo menos R$ 5 bilhões no ano, saldo negativo que será levado para o reajuste das distribuidoras de energia em 2022. O jornal também destacou fala de Kamyla Borges sobre a economia acima de 1 mil MW médios que o Brasil teria com revisão adequada e nos tempos corretos do consumo máximo de geladeiras e aparelhos de ar-condicionado. A Tribuna de Imprensa também repercutiu os especialistas, explorando o lançamento do documento “A Hora e a Vez da Eficiência Energética”.


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