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Ainda sobre Katowice I: A gramática da COP

Por Alice Amorim


15 de dezembro, 2018 - 5 AM. Um ativista climático chega esbaforido no saguão do aeroporto da Cracóvia. Ele desligou o despertador e quase perde o avião. O jovem tinha passado as últimas duas semanas enfurnado em um estádio poliesportivo na longínqua, Katowice, onde milhares de pessoas se reuniram para mais uma Conferência Internacional do Clima. As COPs funcionam como um universo paralelo, com o passar das horas cadenciado por versões de texto que vão perdendo seus brackets, tweets de grande repercussão, debates sobre o fim do mundo, comida ordinária e muita cafeína.


Foto: WWF-Nova Zelândia / David Tong

O ativista, com olheiras profundas, entra na fila para despachar a mala. Uma sensação de alívio e profundo cansaço após as 24 horas finais tensas, que quase desandaram toda a negociação. O objetivo principal da Conferência - fechar a elaboração de um Livro de Regras para guiar a implementação do Acordo de Paris – foi alcançado, mas a sensação é de que se está muito longe, na prática, de alcançar o objetivo de combater o aquecimento global. Logo na frente na fila, uma menina de 12 anos, com um casaco rosa escarlate, consternada com o estado do rapaz, pergunta:


(Menina) – Olá, meu nome é Olga e você não parece feliz. O que houve?

(Ativista) – Olá, meu nome é Henry. Eu estou bem desanimado mesmo. Depois de 2 semanas a gente conseguiu fechar o Rulebook, mas deixamos o Artigo 6 para 2019 e não conseguimos aumentar a ambição.

(Menina) – Rulebook? Artigo 6? Você por acaso estava jogando algum tipo de RPG (role playing game)?

(Ativista) – Não, estávamos negociando as regras para implementar o Acordo de Paris.

(Menina) – Ué, mas as regras não são definidas por cada país? Eu ouvi dizer que cada país faz o que quer...

(Ativista) – Realmente, mas precisamos ter regras que possam nos ajudar a comparar essas ações, avaliar a trajetória das emissões e aumentar o nível de ambição coletiva para conseguir zerar as emissões até meados do século...

(Menina) – Ambição coletiva? Isso parece coisa de treinamento de consultoria de Recursos Humanos.

(Ativista) – Quem me dera... A ambição coletiva é que nem ir a uma academia de crossfit... Se você diz que vai fazer muito, os outros dizem que o que você prometeu é fácil demais. Se você diz que vai fazer pouco, os outros caem em cima de você porque você tem que se esforçar mais.

(Menina) – Mas como é que a gente sabe se a ambição está boa ou não?
(Ativista) – A gente olha pra responsabilidade histórica do país, quanto ainda precisa emitir pra crescer, quantos pobres ele tem que cuidar, quanto de dinheiro ele tem e quanto de orçamento de carbono ainda tem pra ficar abaixo de 1,5ºC.

(Menina) – Caramba, mas com tantas variáveis fica bem difícil de medir, né?

(Ativista) – Sim, mas pra isso que a gente tem o GST e o ratcheting mechanism. De tempos em tempos, a gente vê a soma do que todos os países fizeram e no próximo ciclo aumenta a ambição. Só não vale andar pra trás.

(Menina) – Entendi... isso é bem parecido com um jogo de RPG. A gente joga o dado, alguém do grupo lê as opções de desafios e temos que escolher o caminho a seguir e arcar com as consequências. Às vezes, temos que dominar um dragão, ou enfrentar um bando de anões mágicos revoltados, às vezes passamos fome. Mas é divertido...

(Ativista) – A gente tem tanto desafio que até se perde. Tem que definir se fica só com SDM ou se mantém também o MDL, como acabar com double counting, como fazer mais países apresentarem a LTS, definir o que conta pros 100bi ou não.. Mas no fim do dia, o desafio é escolher entre continuar queimando combustível fóssil, ou salvar algumas ilhas e suas populações no Pacífico...

(Menina) – Uau, agora tá explicado porque vocês gastam tanto tempo nesse jogo. Só pra decorar todas essas siglas eu ia precisar de um caderninho. Mas claro que se uma opção envolve salvar gente e a outra não, acho que não tem dúvida, né?

(Ativista) – É, pode ser...

FIM!



O texto é fictício e foi inspirado na COP24 do final do ano passado. Alice Amorim é advogada e coordena o portfólio de Política Climática e Engajamento do Instituto Clima e Sociedade há um ano. Leia outro artigo produzido por ela aqui sobre a Laudato Si!



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