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Pesquisa inédita revela descompasso entre opinião sobre clima e comportamento do Congresso

Atualizado: Out 11

Há um descompasso entre opinião e comportamento do Congresso Nacional nas agendas ambiental e climática, mostra pesquisa inédita da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS), Instituto Clima e Sociedade (iCS) e Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getúlio Vargas (Cepesp/FGV). Realizado com senadores e deputados federais, o estudo mostra que o alinhamento político de apoio ou oposição ao Governo Federal é um elemento-chave no posicionamento sobre as questões relacionadas à agenda, e foi apresentado ontem (23), às 19h30, em evento da RAPS na Climate Week – evento de preparação para a COP 26, conferência mundial do clima que acontecerá em novembro, em Glasgow, na Escócia.


Confira os principais destaques da pesquisa:


  • 89% dos congressistas concordam com a necessidade de maior fiscalização do desmatamento; 29% elencaram essa como a principal prioridade do governo no contexto de emergência climática;

  • Maioria afirma não enxergar dilema entre conservação ambiental e crescimento econômico, diz se preocupar com questões ambientais, mas ao mesmo tempo destaca que não vê interesse das Casas legislativas em avançar sobre o tema;

  • 87% acreditam que Brasil deve investir mais recursos para reduzir o desmatamento, e 69% concordam com um orçamento mais robusto para o Ibama, que sofreu consideráveis contingenciamentos nos últimos anos;

  • Pesquisa também apresenta novo Índice Ambientalista dos Congressistas (IAC), que aponta grandes diferenças na preocupação entre situação e oposição. Numa escala de 0 a 1, sendo 1 muita preocupação com o tema, congressistas da base de apoio ao governo pontuam menos (0,46) do que a média da oposição (0,85);

  • Diante desse cenário, pode-se dizer que o sucesso de medidas legislativas a favor da proteção do meio ambiente depende da origem: as chances de aprovação são maiores se elas forem propostas pelo Executivo.


Respondida por 17 senadores, 114 deputados federais e 28 assessores diretos, a pesquisa mostra que 94% dos deputados e senadores disseram estar muito interessados ou interessados em questões ambientais. No entanto, embora a maioria considere o investimento em energias renováveis (51%) como elemento prioritário na agenda do clima, apenas 25% optam pelo combate às queimadas.


“Estes resultados nos mostram que, a despeito da estarmos vivendo um momento de emergência climática, parte importante do Congresso Nacional está no que poderíamos chamar de letargia climática, alheia à gravidade da situação", afirma Mônica Sodré, diretora executiva da RAPS.


Mais do que isso, 71% dos entrevistados atribuiu ao Governo Federal a responsabilidade pelo combate ao desmatamento e queimadas, sem correlacionar sua responsabilidade. Isso acontece, como explica Sodré, em um momento no qual o parlamento justamente se move na direção contrária, aprovando projetos de lei que podem não apenas implicar em aumento do desmatamento, como também da grilagem, junto à flexibilização de licenciamento para muitas atividades. “Embora a fiscalização seja atribuição do Executivo, o parlamento federal tem se mostrado conivente com uma agenda do passado. Precisamos que o parlamento dê sua contribuição para nos colocar na agenda econômica do século 21, a da descarbonização", afirma.


Índice Ambientalista dos Congressistas (IAC)


Para compreender as diferenças entre a prática e o discurso, e medir comportamento e percepção dos parlamentares, foram criados três índices inéditos, que variam de 0 a 1: o

Índice Ambientalista dos Congressistas (IAC), que traz uma média a respeito dessa agenda; o

Índice do Senso de Urgência Climática; e o Índice de Defesa a Investimentos para Fiscalização

Ambiental.


Os números mostram que a média dos parlamentares preocupados com o meio ambiente ficou em 0,64, com uma variação grande entre os que apoiam o governo (apenas 0,46), e a média da oposição (0,85). Ainda segundo o IAC, políticos autoposicionados como à esquerda são mais preocupados (0,88) que os de centro (0,58) ou de direita (somente 0,3).


O índice específico sobre o senso de emergência climática dos parlamentares traz a opinião média dos deputados e senadores em 0,59. Essa pontuação é muito maior entre oposicionistas (0,85) do que entre governistas (0,49). Houve diferença, também, na divisão do resultado por ideologia: 0,35 para parlamentares de direta, 0,59 para os do centro, e 0,85 para os de esquerda.


Quando falamos em investir na fiscalização ambiental, a posição média dos parlamentares fica em 0,77, mas a diferença entre o bloco governista (0,72) e o de oposição (0,91) é menor. Isso aponta que os parlamentares do bloco governista se mostram favoráveis à fiscalização com mais frequência do que concordam com a existência de uma emergência climática. Também nesse índice houve diferença entre as posições ideológicas: direita com 0,63, centro com 0,79 e esquerda com 0,9.


Confira o documento na íntegra aqui!


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