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Desafios e reflexões: “a mudança climática já não é uma ameaça distante”

O esforço global contra os efeitos das mudanças climáticas é um daqueles desafios históricos que provocam o sistema internacional de cooperação de diversas formas. Acompanhe a reflexão!


Por Adriana Ramos

A conclusão do processo eleitoral de 2018, um dos mais conflituosos já vividos no país, embora tenha encerrado uma importante etapa de definição sobre o futuro próximo do país, não apontou (de modo preciso) qual serão os próximos passos que o Brasil dará em várias áreas. A agenda climática está entre elas.


Diante das incertezas da crise multidimensional atual – política, econômica e de segurança –, o Brasil pós-eleição apresenta a dúvida a respeito de qual será a sua contribuição para a crise climática global. Após décadas de atuação na liderança do processo de governança internacional sobre um dos temas de maior influência na economia e nas relações exteriores dos últimos tempos, nosso país terá um governo que chegou a anunciar a saída do Acordo de Paris e até da ONU, recuando destas declarações posteriormente.


Adriana Ramos no evento sobre Economia das Flores, no Museu do Amanhã

A mudança climática já não é uma ameaça distante e seus efeitos exigem ação imediata. O esforço global contra os efeitos das mudanças climáticas é um daqueles desafios históricos que provocam o sistema internacional de cooperação de diversas formas. Até hoje, por exemplo, o Brasil tem se afirmado como um dos mantenedores dos esforços multilaterais relativos às mudanças do clima e assim deveríamos seguir.

As declarações da candidatura vencedora nas urnas não apenas desafiam a agenda climática no país, como também no que diz respeito aos direitos territoriais dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Já é público e notório o papel que esses territórios tradicionais cumprem na manutenção de estoques de carbono e na conservação de modos de vida. Eles atuam como um imenso repositório de práticas e conhecimentos, fundamentais como subsídios às estratégias de adaptação que seremos obrigados a adotar - como o próprio IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) já reconheceu por meio do seu Grupo de Trabalho II (que trata das dimensões dos impactos, da adaptação e da vulnerabilidade às mudanças climáticas) desde a elaboração do seu quarto relatório. Os esforços brasileiros de redução de desmatamentos incluíram o avanço no reconhecimento desses territórios como uma de suas linhas de ação e a Convenção das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima também tem destacado o papel desses povos na superação da crise global. A paralisação da demarcação das terras indígenas e sua possível abertura para atividades como a mineração e a agropecuária são medidas que podem afetar diretamente os esforços de redução de desmatamentos, fontes importantes de emissões de gases de efeito estufa no Brasil.


Reforçar a importância desses territórios e apoiar os povos indígenas e comunidades tradicionais nessa luta é uma tarefa de todos que têm no enfrentamento das mudanças climáticas sua missão.

Diante das indefinições do atual contexto, cabe à sociedade brasileira reafirmar suas expectativas de políticas consistentes para a superação da crise climática e da manutenção do papel relevante que o país vem cumprindo internacionalmente nesta agenda. Por fim, precisamos seguir desenvolvendo ações para fortalecer essa trajetória!


#Eleições2018 #mudançasclimáticas #AcordodeParis

Adriana Ramos é coordenadora do Programa de Política e Direito Socioambiental do Instituto Sociambiental (ISA)

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